O cozinheiro de bits

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Direto GNU e porquê não misturar política com software livre

Written by Helio Loureiro on .

Ano passado durante uma arrumação das coisas em casa, pra encaixotar e mudar, encontrei um CD do Direto GNU.  Desde então tenho essa idéia de escrever sobre a história do mesmo, mas sempre tinha alguma coisa a mais pra escrever e acabava esquecendo.  Hoje apareceu a oportunidade.

Antes de continuar devo dizer que tudo que escrevo aqui não é fato comprovado.  É algo do tipo "ouvi do porteiro do amigo da cunhada de um sogro de um amigo meu".  Quem quiser saber se o fato é verídico ou não, o melhor é buscar por si mesmo as fontes pois não sou jornalista investigativo buscando um Pulitzer e isso aqui não é um blog que busca pela veracidade de notícias e fatos (não que tudo postado aqui seja mentira).

Direto GNU

O que era ou é esse tal de Direto GNU?

O Direto GNU foi uma das primeiras experimentações de software público com software livre.  Como no início dos anos 2000 o software livre no Brasil tinha sua meca no FISL, em Porto Alegre, nada a se estranhar que o órgão de TI do governo estadual, a PROCERGS, estivesse tocando algo assim.

O Direto GNU era uma suite de aplicativos de mail pra escritórios.  Em termos gerais, era um substituto livre do Exchange server da Microsoft.  Fazia as partes de servidor de mail,  webmail e agenda integrados.  Talvez tivesse algo além disso, mas nunca nem olhei.  Ganhei o CD da PROCERGS num dos FISLs e guardei. 

Meu interesse nunca foi muito além disso pois eu não trabalhava com nada que precisasse do Direto GNU (não era mais sysadmin) e o sistema era feito em Java.  Até hoje eu olho com cara de quem chupou limão galego quando alguém fala em software livre e código em Java. Aliás, como tenho trabalhando bastante com python e Java, eu atualmente olho pra quem programa em Java com uma certa dó, pela falta de conhecimento de algo melhor.

Software livre, nome até com GNU, Copyleft PROCERGS, Java, FISL... até aí estava tudo bem.  Tudo se encaixava nos moldes de software livre no Brasil.  Então... cadê o Direto GNU?  Onde ele foi parar?  Será que foi abandonado pra em pról do uso de Jegue Panel? É aí que entram as partes que são... rumores.  Ou quase...

Software livre e o risco da mistura com política no Brasil

Era software livre?  Boa pergunta.  Eu achava que era.  O CD ao menos mostrava um "Copyleft PROCERGS".  Mas eu resolvi dar uma boa olhada de perto e...

helio@laptop:DiretoGNU$ ls
direto-instalacao  direto-instalacao.tar.gz  Direto.pdf  Fontes  Fontes.zip  Manual Instalacao.pdf  Manual_Instalacao_Pdf.zip  Manual_Usuario_Pdf.zip
helio@laptop:DiretoGNU$ cd Fontes/
helio@laptop:Fontes$ ls
Agenda         AutorizaPresentation.java  Catalogo     DiretoProperties.java  ImapAdminInterface.java  ObjectPool.java             Usuario.java
Applet Editor  BusinessInterface.java     Correio      diretorio              ImapAdmin.java           parseHash.java              Util.java
Autoriza.java  ByteArrayDataSource.java   Direto.java  Hoje                   JDBCConnectionPool.java  PresentationInterface.java
helio@laptop:Fontes$ rgrep -i gpl *
helio@laptop:Fontes$ rgrep -i copyright *                                                                                                                    
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Catalogo/OptionsInterface.java:* Copyright (c) 2000 PROCERGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
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Catalogo/CatalogoPresentation.java:* Copyright (c) 2000 PROCERGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Catalogo/DiretoOptions.java:* Copyright (c) 2000 PROCERGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Catalogo/Catalogo.java:* Copyright (c) 2000 PROCERGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Correio/FollowUp.java:* Copyright (c) 2000 PROCREGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Correio/Correio.java: * Copyright (c) 2000 PROCREGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Correio/MailUserData.java: * Copyright (c) 1998 The Java Apache Project.  All rights reserved.
Correio/MailUserData.java: * 1. Redistributions of source code must retain the above copyright
Correio/MailUserData.java: * 2. Redistributions in binary form must reproduce the above copyright
Correio/FollowUpServer.java:* Copyright (c) 2000 PROCREGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Correio/CorreioProgramado.java: * Copyright (c) 2000 PROCREGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados
Direto.java:* Copyright (c) 2000 PROCERGS Projeto Direto.  Todos os direitos reservados

Com exceção do software da Apache, o resto era tudo propriedade da PROCERGS.

Qual foi a consequência disso?  Volto a frisar que é um rumor que ouvi do amigo, do amigo, do porteiro do vizinho. Mas ao trocar o governo, com a eventual verificação de caixa - que sempre está baixo pro seguinte - o governador em exercício teve uma idéia brilhante: fechar os fontes e cobrar pelo uso do software.

 

Na época em que fomentavam o Direto GNU o governador do Rio Grande do Sul era Olívio Dutra do PT.  Um dos primeiros políticos que realmente abraçou o uso do software livre em sua administração.  E não somente pra baixar custos, mas pra criar uma vantagem competitiva à região.  E conseguiu, com muito sucesso.  Então todos os órgãos de administração pública do estado adotaram o software.  Empresas de energia elétrica, água, transporte, etc... tudo e todos.

 

Infelizmente a mudança de governo, que sempre acontece de tempos em tempos,  fez uma curva de 180º  nas diretivas de software livre indo totalmente na contra-mão do que existia.  E o novo governador teve uma brilhante idéia pra reforçar a arrecadação da máquina estatal: cobrar pelo software.  E pra cobrar era preciso... fechar o software!

Como a maioria das empresas estaduais já usavam o software, por exigência da administração anterior, virou quase um caso de ser tornar refém de seu uso.  Como o software não existia em repositório, foi fácil mudar tudo pra uma licença proprietária fechada e cobrar pelo uso.  Simples assim.

Foi assim que o DiretoGNU virou um direto na boca do estômago de todo mundo.

Atualmente o governo federal tem um software na mesma linha, o Demoisele, mas o aprendizado do Direto GNU os levou a ter certeza de ter a licença LGPL e de que o software está publicado num repositório externo.  Depois veio também o Expresso, que fica próximo ao Direto GNU em termos de funcionalidade.  Também publicado sob GPL e em repositórios públicos.

Essa foi a lição aprendida em termos governamentais sobre a gestão de conteúdo de software livre.  Mas o seu uso pode ser totalmente abolido caso um novo governo assuma, o que eventualmente deve acontecer, e o mesmo quiser apagar o "legado" do governo anterior.  Por isso é tào importante ter software livre como uma estratégia de crescimento pro país, e não de um partido.  

O software livre não é de direta, nem de esquerda, nem de centro.  É software, e disponível para todos, assim como os algoritmos de matemática.

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Linux Toolbox

Written by Helio Loureiro on .

Se sabe usar corretamente, não precisa de nenhuma outra ferramenta.

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Dell XPS 13 Ubuntu Developer Edition

Written by Helio Loureiro on .

 

Acho que nada dá mais prazer no trabalho que receber um laptop novo.  Tem  gosto de natal.  Em geral esse sentimento de felicidade se dá a cada 3 ou 4 anos, dependendo da política da empresa (e do faturamento, claro).

Ano passado, pela mudança de local e país, eu já tinha recebido um "monstrobook" HP ZBook 15 para trabalhar.  Apesar da versão mais nova de hardware, não era muito diferente do meu antigo laptop, também "monstrobook", que descrevi em "rodando Linux no HP EliteBook 8570w" e que pesava por volta de 5 Kg com a fonte de alimentação.  Notebook parrudo, mas muito, muito pesado.

No final do ano passado recebi a excelente notícia que todos os notebooks corporativos HP deveriam ser trocados pra Dell pros que usavam Linux, que é meu caso.  Felicidade transbordando, vamos às compras.

Entre as opções corporativas, vários notebooks, vários latitudes e inspirions.  Notebooks bons, mas sem muita diferença pra o que eu já tinha antes.  Então resolvi arriscar e pegar um ultrabook, ainda mais um que tinha a cara do que eu queria: Dell XPS 13 Ubuntu Developer Edition.  Eu nunca tinha usado um laptop tão pequeno e principalmente sem drive de CD/DVD.  Mas se Linus Torvalds trabalha num MacBookAir, então resolvi arriscar em algo parecido.

Não vou comentar muito da parte burocrática, pois foi algo chato e que não acrescenta muito.  Apenas que o laptop demorou uma eternidade pra chegar por ser teclado US e quando chegou, veio com o teclado nórdico.  No fim a Dell mandou outro laptop ao invés de trocar o teclado.  Excelente serviço pós-venda deles.  Ao menos pros clientes corporativos.

E gravei o unboxing do brinquedo novo (aliás, como é difícil abrir e desempacotar tudo com uma só mão):

https://youtu.be/dLMlmMiZ_aY

Do laptop, nada a reclamar.  Leve, muito leve.  Algo como 1,2 Kg sem a fonte, que também é pequena.  Parte externa metálica.  E bateria que dura por volta de 6 horas.  Isso mesmo.  Eu passo quase que o dia inteiro trabalhando sem conectar na energia.  Coisa maravilhosa.

A placa de vídeo não é das mais fortes.  É uma placa Intel Broadwell-U.  Funciona bem com os kernels mais novos (estou rodando o 4.1.2 no momento) mas tem alguns problemas pra usar monitor externo na versão de Ubuntu que vem de fábrica.

Falando no Ubuntu, sim eu tive de remover.  Nada contra Ubuntu ou algo assim, mas usamos uma versão corporativa dele na empresa.  Então tive de remover o Ubuntu 14.04 que veio instalado pra instalar... Ubuntu 14.04.

O sistema roda redondo, sem problemas de driver ou algo do gênero.  Vantagem do árduo esforço da Intel junto ao Linux pra implementar seus drivers.  Bluetooth, wifi, controle de volume pelo teclado, tudo, absolutamente tudo sai funcionando de primeira em Linux.  Mais precisamente Ubuntu, mas acredito que não será diferente com outras distros.

O único ponto bizarro dele é mesmo a webcam, que fica na parte de baixo da tela.  Então eu fico com um certo olhar de superioridade em todas as conferências que faço via skype ou algo do tipo.  Eu já sabia desse ponto, mas não diria que é um ponto negativo a ponto de abandonar a aquisação dele.

 

Outro ponto que é um limitante é a memória RAM.  Pra manter o sistema compacto o suficiente pra caber tudo num ultrabook, a memória RAM é soldada diretamente na placa mãe.  Com isso, nada de upgrades.  Então a máquina veio com 8 GB de RAM e esses mesmos 8 GB vão ficar por aqui até o fim da vida útil dele.  Sem problemas agora, mas será que não vou achar pouco daqui 3 ou 4 anos?  Bom... só não rodar Java já libera uns 4 GB com certeza.

Outro ponto é que são somente duas portas USB.  USB 3.0, mas só 2.  Então um HUB USB é essencial pra poder conectar mouse, pendrive e HD externo.  Além da interface ethernet quando dá pau no wifi.  Tem saída de vídeo display port, portanto um cabinho display port pra hdmi no DealExtreme é realmente algo necessário.  E tem um mostrador de nível de bateria, que é muito útil quando se desliga o laptop, mas usa a porta USB pra alimentar o celular.  Tem leitor de memória SD que uso de vez em quando e só.  E tudo funcionando lindamente em Linux.

Outro problema que tenho de tempos em tempos é bug com a placa de vídeo.  Conectar em monitores externos e remover, dá uns crashes bonitos no drive da Intel de vez em quando.  Então meu uptime não é muito alto.  Mas sobrevivo bem com o disco SSD que faz o boot em alguns segundos.

 

Dados técnicos (saídas de comandos como lspci, lsusb, etc):

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Compilando kernel Linux em Debian e Ubuntu

Written by Helio Loureiro on .

Ainda hoje muita gente mostra supresa quando digo que estou rodando um kernel recém lançado em meu sistema.  Apesar de quase todo mundo saber que Linux é o kernel apenas, uma parte do sistema operacional, pouca gente compila seu próprio kernel. E isso é uma coisa bastante simples com Debian e Ubuntu, ou qualquer outro sistema baseado neles.

Também vejo pessoas distribuindo o kernel em forma de download em sites como 4share, mega, etc.  É legal contribuir com comunidade, mas distribuir um kernel assim, a parte mais vital do sistema, dá brecha de segurança pra que alguém insira um malware ali.  Então evite fazer isso.  E compile seu próprio kernel.

O primeiro passo é ter o código fonte do Linux.  Depois que passou a utlizar o git pra controle de versão (e muito mais que isso), eu também passei a usar o mesmo pra sincronizar meus fontes.  No diretório "/usr/src", como root, crie o repositório git local da seguinte forma:

root@jessie:src# git clone https://git.kernel.org/pub/scm/linux/kernel/git/stable/linux-stable.git

Não é um processo rápido.  O sistema vai baixar mais de 1 GB de arquivos no diretório "/usr/src/linux-stable".

Antes de botar a mão na massa, crie um novo "branch" com a versão que irá compilar.  É possível ver as versões disponíveis pelo comando "git tag -l".  No meu caso eu usei a versão v4.1-rc7.  Então a coisa toda pra listar e criar seu "branch" fica assim:

root@jessie:linux-stable# git tag -l | grep v4.1 
root@jessie:linux-stable# git checkout -b v4.1-rc7 tags/v4.1-rc7

O próximo passo é criar uma configuração de kernel antes de compilar.  Em geral eu copio o arquivo "/root/config-<minha versão corrente>".  Se quiser fazer isso, o comando correto é: 

root@jessie:linux-stable# cp /boot/config-$(uname -r) .

Existem outras maneiras de configurar o kernel, como usando o comando "make menuconfig" ou "make xconfig", entre outros.  Mas é preciso saber exatamente o que se quer do kernel pra configurar o que se realmente deseja.  Uma tarefa não muito fácil pras primeiras compilações.

O passo seguinte é instalar um pacote chamado "kernel-package".  Esse pacote é que faz toda a mágica da compilação e geração de pacotes pra você.  Isso mesmo: ao final do processo terá um kernel seu num arquivo .deb.  Eu já usei isso muito pra compilar em uma máquina e instalar em várias outras.  Voltando ao pacote, instale usado "apt-get", "apt" (novíssimo), ou "aptitude".

root@jessie:linux-stable# apt install kernel-package

O passo seguinte é chamar o kernel-package pra criar o kernel.  Eu pessoalmente uso da seguinte forma:

root@jessie:linux-stable# make-kpkg --initrd --append-to-version "-helio" --bzimage --revision 1 -j 4 kernel_image

O comando passado e os parâmetros são:

  • make-kpkg: é o comando instalado pelo pacote kernel-package.
  • --initrd: criar um sistema de boot initrd (a maioria dos sistema usa).
  • --append-to-version "-helio": pra deixar seu kernel com a sua "cara".  Vai aparecer algo como 4.1.0-rc7-helio na versão dele.
  • --bzimage: criar um kernel comprimido no formato bz.
  • --revision 1: revisão do pacote que será gerado.
  • -j 4: quantas CPUs serão usadas durante a compilação.  Se sua máquina tem múltiplos cores como a minha, basta colocar esse número.  Se não tem ou não sabe, não use esse parâmetro.
  • kernel_image: é o que diz pro kernel-package pra gerar só o pacote .deb do linux-image.  Pode-se criar outros pacotes como source, headers, etc.

Ao iniciar a compilação, o sistema passará por uma etapa de revisão da configuração que foi definida anteriormente.  Todo opção nova passará por uma pergunta se deve ou não ser incluída, ou ficar como módulo (pra ser carregado dinamicamente).  Toda pergunta já vem com alguma sugestão de resposta.  Em geral essa é a melhor opção a menos que realmente saiba o que aquela configuração significa.

Passada essa etapa, pode ir pegar um café.  Um café?  Melhor um bule inteiro.  E pode ir assistir ao último episódio de Game of Thrones que a compilação demora um pouco.

Uma vez terminada, se não tiver nenhum erro, será gerado um pacote com o formato "/usr/src/linux-image-<versão do kernel><nome que você personalizou>_<revisão>_<arquitetura da máquina>.deb".  No meu caso foi o pacote "/usr/src/linux-image-4.1.0-rc7-helio_1_amd64.deb".  Basta instalar e rebootar o computador pra testar a nova versão.

root@jessie:linux-stable# cd ..
root@jessie:linux-stable# dpkg -i linux-image-4.1.0-rc7-helio_1_amd64.deb
root@jessie:linux-stable# reboot

Se por acaso alguma coisa der errado, basta segurar o <Shift> ou <Esc> na inicialização da máquina, antes de carregar o Grub, pra poder ver o menu do mesmo.  Em seguida escolher o kernel que se estava rodando antes e inicializar por ele.  Depois basta remover o kernel criado, algo que e facilitado pela geração do pacote .deb.

root@jessie:linux-stable# dpkg -r linux-image-4.1.0-rc7-helio

Se for compilar o mesmo kernel, mas com opções de configuração diferentes, pode usar outra revisão.  Aliás incrementar a mesma.  Isso aparecerá no pacote gerado, mas não no kernel.

Boa compilação e boa diversão :)

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Gladiadores da liberdade

Written by Helio Loureiro on .

Não é um fenômeno recente.  Faz alguns anos que esse sintoma tem aparecido.  Mas não é no mundo todo.  Até o momento só vi isso vindo do Brasil, o mesmo país que pede pela volta dos militares ao poder com a chamada "intervenção militar no Brasil".  Temas distintos, modus operandi similar.

O princípio é "se não for como eu quero, então está errado".  Isso pode ser usado em qualquer âmbito: religião, futebol e até mesmo em... software livre!

Essa discussão em software livre já vem caminhando nessa direção faz algum tempo.  E sempre com extremismo.  Os pontos são sempre "se não for livre, então é outra coisa".  A moda do momento é chamar como "OSIsta", uma alusão pejorativa de quem usa ou endossa a iniciativa do "open source".  Notem novamente o "modus operandi": é preciso ter um nome, um label, um rótulo, algo pra classificar, desmerecer, pra fazer um dualismo, uma contra-posição.

Essa tendência repete-se nitidamente na política, como se verificou nas últimas eleições presidenciais.  Ao invés de um debate democrático, partiu-se pra um enfrentamento de "nós x eles".  No caso da política, de ambos os lados, e todos recheados de mentiras e números mágicos pra comprovar alguma coisa.  O ponto era sempre irrelevante, o importante era ter uma "torcida" contra e outra a favor.

Em software livre estamos na fase das "torcidas".  É um tal de "minha distro é melhor que a sua" e de "pra resolver esse problema, instale a distro tal".  Perdemos o saber, o conhecimento, o prazer técnico.  Voltamos à idade da pedra digital.  Batalhas épicas são travadas por causa de interfaces gráficas.  Ninguém mais liga se é possível instalar essa mesma interface em outra distro ou não.  Ajudar?  Escrever software?  Não, muito obrigado.

Comunidade de software livre

O que é uma comunidade?  A wikipedia, que é uma comunidade, nos ajuda a responder do ponto de vista sociológico:

Uma comunidade é um conjunto de pessoas que se organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico. Os estudantes que vivem no mesmo dormitório formam uma comunidade, assim como as pessoas que vivem no mesmo bairro, aldeia ou cidade. Fichter, 1967 em suas Definições para uso didático ressalta que uma palavra que é rodeada de significados múltiplos, requer uma cuidadosa definição técnica, ao que propõe: comunidade é um grupo territorial de indivíduos com relações recíprocas, que servem de meios comuns para lograr fins comuns.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade

São indivíduos reunidos por algo comum em buscar de reciprocidade pra chegar nos mesmos objetivos.  Isso significa que pra fazer parte de uma comunidade basta... participar!

E numa comunidade de software livre?  O que se espera de alguém que participe de software livre?  Pode parecer loucura minha, mas se espera que a pessoa faça... software!  E livre! Livre!  Que coisa doida, não é?

Claro que nem todos têm essa capacidade de escrever software.  Mas sempre podem colaborar como membros de um grupo, ou até vários.  Podem ajudar com traduções, escrevendo novos documentos de uso, compartilhando experiências em blogs, participando de grupos, fazendo eventos, palestrando, escrevendo relatórios de bugs e... eventualmente... escrevendo software!

Numa comunidade esse é o caminho do aprendizado, vai se crescendo conforme se participa e adquire mais maturidade.  Uma comunidade de software, seja livre ou não, não vive por muito tempo se ninguém se dispuser a escrever o software.  No caso de uma comunidade de software livre, temos de fazer sempre software, e livre.

E como define liberdade?  Como um software é livre?

Nisso o Richard Stallman já nos ajudou mostrando que pra um software ser livre, ele precisa atender as 4 liberdades.  Eu já tinha descrito no post "freesoftware e negócios", mas o faço novamente aqui:

  • A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito (liberdade 0).
  • A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo às suas necessidades (liberdade 1). Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.
  • A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao próximo (liberdade 2).
  • A liberdade de distribuir cópias de suas versões modificadas a outros (liberdade 3). Desta forma, você pode dar a toda comunidade a chance de beneficiar de suas mudanças. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

 Então pra fazer parte de uma comunidade de software livre, basta criar softwares partindo desse princípio básico.  E a licença?  Sempre depende de quem criou.  Alguns gostam da GPL (sendo que GPLv2 e GPLv3 são muito diferentes), já outros preferem BSD, ou Artistic License.  Eu uso uma no estilo da Artistic License, a BWL.

Veja que software livre não é algo que dá poder ao programador ou desenvolvedor, mas ao usuário, que pode usar o software como quiser e quando quiser.  Inclusive pra vender.  O desenvolvedor permite que qualquer um possa usar e melhorar seu software.

Foi esse tipo de liberdade que me atraiu pro software livre.  Não foi pra libertar um país de nenhum ditador, nem pra subverter a economia, muito menos pra derrotar o capitalismo.  Eu gostei da visão pragmática do software livre, onde todos têm acesso ao código fonte e podem melhorar o software.  Isso pra mim foi e ainda é liberdade.

Mas aparentemente não pra galerinha que gosta de rotular.  Software livre extrapolou os limites do software pra se tornar uma luta de classes.  Como ideologias econômicas temos o capitalismo, o socialismo, e agora o softwareliberalismo.  Não, não existe, mas para alguns, aparemente é o que é.

E como se define um líder numa comunidade?  Em geral é pela meritocracia.  Meritocracia de fazer polêmica?  Não, meu caro.  Deveria ser por ter passado por todos os estágios de uma comunidade de software livre.  Mas quantos que gritam pelas ruas pela "liberdade do software" realmente se encaixam nesse perfil?

 

Ubuntu, a bola da vez

Muitos desses "lutadores da liberdade", ou melhor, "gladiadores da liberdade" escolheram o Ubuntu como alvo.  Qual o motivo?  Duas respostas simples:

1) Ubuntu lidera o mercado de desktops Linux

2) Ubuntu não é uma distribuição criada por uma comunidade, mas por uma empresa, a Canonical

Então qual é o mais fácil de atacar?  Quem tem o menor número de usuários ou o maior?  Claro que o maior.  Por isso que Ubuntu é sempre escolhido como alvo preferido.  E enquanto mantiver essa liderança, continuará sendo.  Pra isso não importa se trouxeram mais usuários pra Linux, se mantém um portal pra correções de bugs ou que façam doações de mídia de instalação gratuitas.  É corporativo, é do mal.  O que antes era ocupado pela Microsoft como visão de antagonismo, agora é a Canonical com seu Ubuntu.  É sempre preciso ter um inimigo pra lutar contra.

Os problemas citados?  Vou apenas comentar um: Ubuntu "monitora seus usuários".  A Canonical, mais uma vez como empresa, decidiu monetizar o Ubuntu utilizando as "lentes" de seu ambiente desktop pra fazer buscas na Amazon e assim conseguir algum financiamento com essas buscas.  O mesmíssimo mecanismo usado por... FIREFOX!  Sim, o browser Firefox.  Quando se faz a pesquisa na caixa de pesquisas do browser, ele envia ou pra Google ou pra Yahoo, pra monetizar o projeto e assim poder financiar seu desenvolvimento.

Mozilla taps in-Firefox ads as it searches for more revenue

Mas o Firefox, ou melhor, a Mozilla não é líder.  Nem em browsers, nem em telefones (que recém lançaram e não fez muito diferença pros usuários).  Então não vale a pena receber o ódio dos gladiadores da liberdade.  É preciso ter um significado, mostrar alguém com monstro, como contradição.  É preciso ter um diabo pra existir um deus.

Todos os outros comentários sobre Ubuntu, e que podiam ser pra qualquer outro, caem no caso de factóides.  São apenas meia-verdades contadas pra criar um fato, um caso.  Apenas pra gerar polêmica e buscar atenção.  Não vou comentar mais nenhum, mas da próxima vez que ouvir sobre algo assim, pergunte a si mesmo qual é a licença usada nesse software/produto da Canonical, se o código fonte está disponível, se é usado pela Canonical, pelo kernel (Linux), se é usado por outras distribuições profissionais como RedHat e Suse, e se qualquer usuário poderia optar por remover ou não pelo gerenciador de pacotes.  Se está entre algum desses, factóide na certa.

Devemos lutar pelo Ubuntu?

Acho que não.  Ubuntu não precisa disso ou de qualquer um de nós.  É gerido por uma empresa, e não por uma comunidade.  Como tal, toma suas decisões como melhor convier pra seu negócio.

E se em algum momento o Ubuntu ou a Canonical se sentirem lesados por essas atitudes, tenham certeza que seus advogados agirão.

Eu gosto do Ubuntu pela facilidade de entrada ao mundo de software livre que proporciona às pessoas.  Não é feito pra mim ou pra qualquer um que já use Linux, mas pra quem nunca usou ou experimentou.  Esse tipo de usuários (veja que não me refiro como comunidade, mas usuário) não tem interesse ou conhecimento sobre liberdade.  Não nesse primeiro contato, que é muito importante.

Eu sou fã irrestrito do Debian, mas simplesmente desisti de tentar esse primeiro contato através dele.  Por que?  Debian não é bom?  É bom pra mim.  É ótimo.  Mas toda vez que tentei fazer uma instalação pra amigo, pra convencer a usar, virei um tipo de suporte técnico.  Aliás personal suporte técnico.  E problemas não faltaram.  De upgrade que parou de funcionar ambiente gráfico a modem que não conectava mais na Internet.

Atualmente recomendo usar Ubuntu sem medo.  Se gostar e quiser aprender mais, ensino sobre Debian.  Se achar horroroso e difícil, já abandona ali mesmo.  Ganhei tempo ao invés de perder.

Esse é o discurso que todos deveriam adotar em software livre: inclusão.  Mas ao contrário disso decidimos por ir direto pela segregação.

Incrivelmente alguns realmente acham que esse caminho dará certo.  Eu prefiro concordar com a imagem que o Patola postou num dos grupos que discutiam esse tipo de assunto.  Deixa bem claro quem realmente ganha com a ajuda dos gladiadores da liberdade.

 

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Linus lança versão mimimi do kernel Linux

Written by Helio Loureiro on .

Cansado de tanta repercursão negativa e tentando ter seu kernel em acordo com as diretivas da GNU, Linus Torvalds está lançando a versão do kernel que passará a se chamar "mimimi".  Segundo o próprio:

- O que antes se chamava Linux, de agora em diante será chamado simplesmente de mimimi.  Não virá mais com nenhum blob binário ou suporte a hardware que não seja livre, ou melhor, livre de mimimi.  Aliás também não terá gereciamento de memória, já que ninguém lembra mesmo de nada e quando o assunto é "fazer software", o sujeito finge que não é com ele.  Isso atenderá as demandas de liberdade de todo mundo, que poderá chamar de sistemas GNU/mimimi.

Apesar de não ter sido claro e específico, o novo kernel parece ter sido feito sob medida pro Brasil, pois leva a tag "br".

A versão inicial é 6.6.6-br mas não se sabe se o GNU/mimimi terá mais versões ou vai ficar nesse mesmo release indefinidamente. Alguns já dizem que GNU/mimimi não precisa de mais versões, pois o mimimi é infinito.

Nota: esse é um post de 1º de abril.  E o choro, como sempre, é livre.

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Debian Jessie está demorando? Saiba como ajudar.

Written by Helio Loureiro on .

Não é de hoje que os releases do Debian não saem nas datas esperadas.  O Debian evita ter uma data certa, como faz o Ubuntu, por focar na qualidade: enquanto não estiver com todos os bugs corrigidos, não há o lançamento da versão.

Mas em tempos de 140 caractéres, é difícil conter a ansiedade em esperar.  Muitos já estão migrando pra nova versão que virá, a Jessie, mesmo essa estando em estágio de "desenvolvimento" ainda.

Mas você pode ajudar a resolver os problemas.  Foi lançado um mail pra informar o estado atual do desenvolvimento.  São 55 bugs ainda abertos que precisam de correção.

Status of Jessie release

Se quiser contribuir, basta ajudar a resolver esses bugs, e enviar suas correções/comentários pro time (ou pessoa) responsável.

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Vírus em Linux

Written by Helio Loureiro on .

Vírus em LinuxTem sido bastante difícil pra mim manter meu site atualizado, e não estou conseguindo manter meu ritmo de ao menos 1 post por semana.  Sinal de trabalho duro em outras coisas.

Estava pra comentar sobre esse assunto espinhoso, dos vírus pra Linux, faz um certo tempo.  Ao menos desde o início do ano.  Mas... enfim consegui um momento livre pra eu poder fazer isso.

A pergunta que surge de tempos em tempos é clara: EXISTEM VÍRUS PRA LINUX?

As respostas variam.  Defensores de Windows dizem que com toda certeza existem.  Mostram receitas esotéricas sobre como isso é possível e sempre voltam com a famosa frase "nenhum sistema é infalível", ou algo parecido com isso.

Os defensores de Linux, eu me incluo nesse grupo, dizem que é impossível.  Linux não é Windows.  Não foi feito sobre a mesma plataforma furada da Microsoft, que é cheia de buracos, e até provavelmente com alguns toques da NSA pra ajudar.  Se o usuário do Linux tem algum problema, o motivo é que não sabe atualizar sua distro.

Mas isso não explica a quantidade de problemas que têm aparecido sobre malwares em plataformas Linux, inclusive Android.

 

O problema é o windows.  Não que o windows tenha criado uma geração de vírus, mas o windows cunhou fortemente o conceito errado de que tudo é vírus.  Todo problema, malware, tudo é vírus.  E também foi graças ao windows que o conceito "se não funcionar, reinstala, se está lento, reinstala, e se quer mudar o wm, reinstala" se fortaleceu.  Isso se faz bem claro nos usuários que, pra trocar o Unity no Ubuntu, reinstalam o sistema inteiro.  Em geral com alguma refisefuqui.

Vírus é um pedaço de código que altera binários ou arquivos, e que se executa cada vez que esse programa é chamado ou aberto, no caso de arquivos.

Claramente isso não é possível no Linux por um simples motivo: quem executa o programa é o usuário e quem é o "dono" do binário é em geral o root.

Mas os problemas existem.  E muitos.  Existem os usuários que teimam em trabalhar como root no sistema, pra "facilitar as coisas".  Em geral os mesmos que reinstalam os sistema inteiro pra apenas trocar o wm (window manager).  Existem também os "programas de terceiros", como o plugin flashplayer, que não recebem as devidas atualizações de segurança.  Felizmente esses "programas de terceiros" não causam danos ao sistema como um todo, mas infelizmente podem fazer estrago o suficiente com o usuário, como permitir que suas credenciais de banco sejam roubadas.  Basta ver os recentes problemas do Java da Oracle.  Recentes?  Melhor dizer "contínuos".

E dá pra viver sem esses "aplicativos de terceiros"?  Até dá, mas não é muito fácil.  Alternativas existem, como pepperflashplugin ao invés do flash da Adobe, não usar acrobat reader ou seu plugin, mas os modos nativos do Firefox e do Chrome/Chromium pra renderizar pdf, etc.  O problema não são os "aplicativos de terceiros", mas se esses terceiros tratam os usuários de Linux com respeito, atualizando a cada falha encontrada.  Um bom exemplo dessa prática é o "steam", de jogos.

O problema então é o usuário, sempre?

Não.  Novamente o problema vem do windows.  Ou melhor, da idéia de vírus que veio com o uso do windows.  Quando discutimos o conceito de vírus, sempre nos vem a imagem de um desktop.  Daí os argumentos de problemas de segurança no Linux são apenas falta de atualização.  Isso não é verdade.

O outro lado do problema apareceu bem recentemente durante os ataques de DDoS do grupo LizzardSquad contra as redes de jogos PSN e Xbox Live.

Lizard Squad used hacked routers to take down Xbox Live and PlayStation Network

Foram usados roteadores caseiros, desses que usamos pra ter acesso wi-fi as nossas redes dentro de casa.  O artigo não diz, mas acredito que câmeras IPs também foram usadas.  

Esse tipo de problema não é novidade.  Foi discutido durante um dos YSTS, acho que o de 2013 que participei.  fabricantes, em geral na China, criam seus produtos pra rodar Linux, mas não dão nenhuma manutenção.  São sistemas customizados a ponto de ser impossível de rodar uma alternativa como dd-wrt/open-wrt. Esses sistemas rodam kernels Linux muito, mas muito velhos.  Daí que as explorações de vulnerabilidades, não vírus, ficam fáceis.  Nesse ponto temos de dar o braço a torcer pros usuários de windows.  Defender Linux nessas condições é quase como apontar o dedo pras máquinas windows comprometidas que rodam a versão XP.  O agravante é que o usuário se torna refém do fabricante, pois diferente dos computadores, esses sistemas embutidos não permitem que qualquer um atualize como quer, quando quiser, com a distro que mais gostar.

Então da próxima vez que ler sobre "vírus pra Linux", antes de cair na gargalhada, pense nesses roteadores e câmeras IPs.  Pense se esses sistemas rodando um Linux 2.4.20 não pode ter sua segurança facilmente comprometida.  Depois lembre que Windows, até hoje, pode ser comprometido acessando uma página web.  Foi corrigido?  Espere algumas semanas que sempre aparece de novo.

Ah... o windows...

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