Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves - um pouco mais sobre inverno

Imagem de uma estação de metrô coberta de neve num dia nevando.

 Se chegou aqui e ainda não leu os outros artigos, então pare e leia agora:

Peço desculpas pelo último artigo sobre o inverno.  Mas depois de alguns anos vivendo no frio, gelo e escuridão, eu já estou parecido com o argentino no Canadá.  Exceto que não cai pra quebrar nenhum osso ainda, nem bati carro na neve e muito menos penso em voltar pro Brasil.

 

Eu larguei meu rant sobre o inverno e não comentei de algumas coisas loucas que já fiz aqui nessa época do ano.  Teve uma vez que caiu uma tempestade de neve que era prevista ser a pior da última década.  Era tipo uma confluência de tempestades de neve juntas com mais uma frente fria chegando e tudo mais.  Era algo como o dia que até o inferno congelaria.  Chamaram carinhosamente de "a besta do leste", the beast of East.

Sabendo das notícias, eu e meus colegas combinamos de trabalhar no tal dia remotamente.  E o que aconteceu?  Nada.  Não nevou.  Ficou tudo ok.  Então durante aquele dia decidimos todos ir pra empresa no dia seguinte.

E eu fui de bicicleta.

Só que a tal mega tempestade de neve pegou algum congestionamento na Alemanha e chegou no dia seguinte.  E com força.  Eu por acaso consegui registrar muita coisa.

 

 Foi até engraçado, mas o ruim foi que nevou muito.  Demais.  Carros foram soterrados na neve.  Quem estava na empresa saiu por volta das 10 horas da manhã porque os carros estavam desaparecendo na neve.  E quem saiu nesse horário ficou preso num mega congestionamento, porque estava intransitável. E eu com a minha magrela.

O esforço de pedalar na neve é parecido com o de pedalar em areia fofa (chuto que seja porque nunca tentei andar de bicicleta na praia, mas andando é a mesma sensação, então deve ser também parecido).  Cansa.  Cada 2 ou 3 pedaladas que eu dava, andava meia pedalada.  Mas eu sobrevivi.  Fui e voltei ao trabalho numa das piores tempestades de neve dos últimos tempos.

Só que de noite, enquanto eu dormia, simplesmente tive câimbras nas duas batatas das pernas.  Eu lá, dormindo e babando, e de repente eu pulo (e caio) da cama gritando de dor com as duas pernas travadas.  Dizem que maratonistas novatos têm esse tipo de reação depois do esforço extremo da corrida.  Eu precisei trabalhar o restante da semana de casa porque nem andar eu conseguia direito.

Foi louco, mas eu fiz.  Acho que maratonistas também sentem a mesma coisa.  Tanto de adrenalina e sentido de superação quanto as câimbras.  Não sei se faria novamente.  Mas como estamos todos em casa por conta da pandemia, então não preciso pensar muito nisso.

E agora um fato que aconteceu esses dias e tirei uma foto pra registrar.

Mesma estação de metrô que abre o artigo, com neve também, e com crianças andando na plataforma com um adulto na frente.

É a mesma foto que abri esse artigo, digo, o mesmo lugar, mas repare nas crianças na plataforma.

Eu esqueci de dizer nos artigos anteriores que as escolas levam as crianças pra excursão usando o transporte público.  A pessoa mais na frente é a professora ou professor.  E de manhã é bem comum ver um monte de alunos na plataforma do metrô.  Em alguns casos eles vão à biblioteca do bairro, que fica a uma estação dessa, em outras vão visitar museus.  Sim, museus.  Os museus aqui na Suécia, e principalmente em Estocolmo que tem muitos, é um lugar de diversão pras crianças.  Eles têm geralmente um parque indoor temático, relacionado à exposição do museu, onde as crianças podem brincar e aprender.

As fotos a seguir são das partes pras crianças brincarem no tekniska museet, museu de tecnologia.  O mesmo onde está o primeiro servidor do piratebay.

Parece com os dizeres (em sueco) "brinque com energia" e desenhos pras crianças entenderem.

Uma sala de recreação com peças de madeira colorida espalhadas por todos os lados.

E enquanto as crianças estão entrando ou saindo do trem do metrô, o maquinista espera.  A última pessoa a entrar e sair é o professor.  Quando a turma é muito nova, como jardim da infância, eles vão em 2 professores ou então duas turmas de crianças com 4 professores.  E sempre tem um que sai ou entra por último e faz sinal pro maquinista que está ok pra ir.   E só então o trem fecha as portas e segue.  É algo tão, mas tão, mas tão comum aqui que eu esqueci de escrever sobre isso antes.

E agora algo sobre mulheres e maquiagem.

Revista com foto de mulher sueca com pouca maquiagem na capa.

Essa revista chegou hoje.  Essa é a típica mulher sueca aqui.  Não só pelos olhos azuis e cabelo loiro, mas pela pouca maquiagem.  E não existem nenhuma sensualização dela na foto.  E apenas ela sendo ela.  E confesso que depois de um tempo aqui, passando por essa desintoxicação quanto ao marketing brasileiro e objetificação feminina, eu já acho hoje em dia as propagandas que vejo do Brasil com algo bem vulgar.

E é isso.  Guardar energia pra escrever mais na semana que vem.  Que com certeza terá mais frio, mas já menos escuridão.

Previsão do tempo mostrando temperatura de -4°C e sol nascendo às 08:21 e pondo-se às 15:38.

Já é possível ver como melhorou muito o tempo aqui.  Peço perdão pelo sarcasmo.

 

UPDATE 2022-01-22: algumas fotos de como realmente fica tudo em volta durante o inverno, sem o romantismo das bolas de neves.  Parte da sujeira é por causa da areia, mostrada numa das fotos, que serve pra dar um pouco de atrito no gelo e tentar ajudar a não escorregar tanto.  Mas boa parte do que se vê são os "icepacks", pacotes de gelo.  Neve que derreteu e congelou de novo.  Tirei as fotos hoje durante minha ida ao restaurante próximo pra comprar o almoço.

Calçada com neve derretida e suja.

Rua com neve derretida e suja.

Calçada com neve derretida e suja.

Caminho com neve derretida e suja.

Calçada com neve derretida e suja.

Caminho com neve derretida e suja.

Caminho com neve derretida e suja.

Calçada com neve derretida e suja.

Areia que é jogada nas calçadas e caminho pra dar mais atrito no gelo.

Praça com neve derretida e suja.

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves - o inverno

Categoria: Suécia Publicado: Sábado, 15 Janeiro 2022 Escrito por Helio Loureiro

Sol pondo-se atrás das árvores num bosque coberto de neveo.

Se ainda não leu os artigos anteriores:

Como bons brasileiros, nós não conhecemos neve.  Talvez alguns dias frios durante o inverno,  um pouco de gelo pra quem viaja pra São Joaquim em Santa Catarina, ou férias de inverno em Bariloche pros mais abastados.  Então é uma visão romântica da neve e do inverno.

Inverno é duro aqui.  Muito duro.   Começa a ficar frio por volta de meados de setembro e só volta a melhorar em meados de abril.  Mas em alguns anos isso só aconteceu em julho (e também teve anos em que março estava bom).   Então vivemos com as janelas fechadas por 5 ou 6 meses por ano.  Janelas com vidro duplo, pra isolar o ambiente.  Dentro de casa vivemos em confortáveis 21°-25° C dependendo dos radiadores e da casa.  Em geral perto de 21° C.

Não bastasse o frio, uma das piores coisas aqui na europa nórdica é a escuridão.  A foto acima do sol pondo-se foi feita por volta das 3 horas da tarde.   Nessa época do ano o sol nasce depois das 8 da manhã.  Hoje, dia 15 de janeiro, o sol nasce às 8:30 e põe-se às 3:24 da tarde.   O ápice a escuridão é dia 21 de dezembro, e depois disso vai aumentando as horas de sol.  1 minuto mais ou menos por dia (em certo momento é bem mais, mas não vou entrar nesse assunto).

Image da previsão do tempo mostrando temperatura de 0°C com sol nascente às 08:30 e poente às 15:24.

Nos primeiros anos recebemos isso como novidade e até adoramos.  Afinal é novidade.  Mas conforme o tempo vai passando, e isso vira sua rotina, começa a afetar você.   Em geral levando à depressão.  E esse é um dos maiores motivos de uso de antidepressivos aqui, do qual também sou usuário: regular o corpo com os ciclos de pouco sol no inverno e muito sol no verão.  É bem comum encontrar pessoas que passam pelo problema de insônia, que é um dos efeitos disso.   Durante o inverno, o isolamento em casa também vira uma norma.  E isso traz ainda o que é conhecido como S.A.D., Seasonal Affective Disorder, que é uma forma de depressão.

Esse ano a cervejaria BrewDog fez uma campanha de cerveja pra ajudar as pessoas que sofrem de S.A.D. de tão grave e comum que isso é na europa como um todo (talvez não tanto na parte sul como Grécia, Itália e Portugal).  Os lucros arrecadados serão destinados ao tratamento dessa desordem e doenças mentais.

Logo do site da empresa BrewDog (cervejaria) dizendo "tudo bem sentir-se triste", uma alusão à sigla SAD.

Cerveja da BrewDog com 0,5% de álcool com uma mensagem dizendo "eu sou completo" em inglês.

https://www.brewdog.com/uk/iamwhole

A primeira coisa que temos que fazer pra combater o S.A.D. é aumentar a dose de vitamina D, aquela que conseguimos pelo sol.  Aqui é item obrigatório entre meados de setembro até meados de março ou até mesmo abril.  Adultos e crianças.   Mas mesmo não tendo S.A.D., os efeitos do pouco sol fazem-se sentir logo mesmo com a vitamina D extra: cabelos caindo e unhas quebrando.  Mesmo os animais de estimação perdem bastante pelos durante o inverno, a ponto de eu achar que consegueria montar um gato a mais por mês com tanto pelo que o roomba coletava (roomba, o robôzinho que varre o chão).

Pote de tabletes de vitamina D à venda por 54,95 coroas suecas.

Além do pouco sol, insônia, cabelos caindo, unhas quebrando ainda existe um outro problema com o inverno que é a pele.  A pele sofre e muito com o clima frio, que é muito seco.  Então uma das coisas que temos de abandonar aqui até certo ponto é banho.  É comum ouvir falar de gente que foi ao médico ver uma irritação na pele que estava ficando vermelha, meio esfolada, e o médico perguntar "está tomando banho todo dia?".  A água aqui tem muito calcário, tanto que deixa umas manchas brancas por onde seca.  Essa mesma água usada diariamente vai deixando a pele cada vez mais seca.  Ao ponto de exigir usar cremes hidratantes.

Creme dermatológico hidratante, 500 gramas, por 199 coroas suecas.

Eu costumo ou usar esse creme, que não tem cheiro e é bom pra quem é alérgico a quase tudo como eu, ou uso um Dove cream shower após tomar banho.  E tem quem tome até dois banhos por dia e não tenha esses problemas de pele.   Mas quem não cuida e insiste pode desenvolver o que é conhecido como "alergia ao inverno", que é o pior ponto onde pode-se chegar.  Essa alergia é uma eczema da pele que fica irritada com qualquer coisa sintética.  Então imagine como é terrível enfrentar de 5 a 6 meses de inverno sem poder usar uma jaqueta.   E o uso de roupas de algodão, que é a única coisa possível de usar quando se está com a pele assim, têm o incoveniente de perder muito calor.  Ao suar, a roupa de algodão fica molhada e não seca, tanto que não é recomendado seu uso.

Então parte do ritual de enfrentar um inverno tão longo é acostumar a usar roupas que permitam que sue, mas o suor fique isolado fora do corpo e ainda assim te mantenham aquecido.  Por conta disso as roupas de inverno não cheiram lá muito bem pra narizes recém chegados.  Claro que com o tempo a gente acostuma.

Só uma curiosidade sobre os próprios suecos.  Como eu costumava ir trabalhar de bicicleta mesmo durante o inverno, claro que dividi vestiário com vários colegas e pude notar seus hábitos quanto ao banho.  Existiam alguns que só se enxugavam o suor e colocavam a roupa de trabalho (porque aqui tem de usar uma roupa própria pra pedalar durante o inverno), mas a grande maioria tomava o "banho sueco" que é basicamente entrar no chuveiro e só passar um água rápida.  Menos de 5 minutos.  Sem sabão.  Sim, deixar a pele oleosa.  Isso ajuda a pele a sobreviver à rotina do inverno.

Foto minha com roupas e capacete que uso quando ando de bicicleta sobre uma ponte coberta de neve.

Eu comentei acima que dentro de casa as temperaturas são de 21 à 25°C.  Recomendam então usar pouca ou nenhuma roupa dentro de casa pra justamente a pele respirar.  Por isso é tão comum ver gente andando pelada nos apartamentos no centro da cidade.  No começo você acha engraçado e fica um pouco envergonhado com isso, mas depois de um tempo você vira mais um dos pelados andando pela casa.

Mas e a parte legal, de esquiar, patinar no gelo, bonecos de neve, etc? 

Uma criança numa rua coberta de neve com seu boneco de neve.

Claro que isso existe.  E é bem divertido.  Mas em geral só é possível um ou dois dias depois que nevou, ou em alguns parques enquanto a temperatura ficar abaixo de zero e não tiver muito sol, o que é comum durante o inverno.   Nos locais de muita circulação a neve vira uma lama que suja tudo por onde se anda (e daí o hábito na Suécia de não se usar sapatos dentro de casa, nem as visitas).

Porta giratória coberta de lama da neve que derreteu.

Saída de pedestres de um estacionamento onde a neve já está toda suja e marrom.

Esquiar já é algo diferente.  Eu nunca fiz, mas as estações de esqui ficam em sua maioria em locais onde a neve cai o ano inteiro.  Então é mais ou menos ter vontade de ir lá fazer.  Eu até hoje não fui, mas algum dia tento.  Quero experimentar o snowboard.

A neve dá uma alegrada na escuridão nórdica, mas por outro lado cria o problema de que escorrega.  E muito.  O sol bate na neve, que reflete a luz e aumenta a troca de calor.  A parte de cima da neve esquenta e derrete.  Mas assim que o sol se vai, essa parte de cima congela novamente e vira gelo.  Uma área gigantesca de gelo.  E no escuro.  Os carros e mesmo as bicicletas aqui usam pneus de inverno, que em geral têm cravos de metal pra segurar nesse gelo.  Mas não os sapatos.  Aliás até tem umas garras que podem adaptar nos sapatos pra andar no gelo, mas é complicado andar com aquilo por aí.  Se for ao mercado por exemplo, na rua estará super seguro de escorregar no gelo mas ao entrar no mercado o piso liso vai fazer você escorregar.  Então não é algo muito prático pra se usar durante todo o inverno.  Talvez pra uma caminhada nos bosques.  Então durante o inverno é comum as pessoas caírem e quebrarem braços, pernas, pulsos, etc.  Imagine você ter caído num inverno e quebrado a perna?  E imagine o medo de acontecer de novo.  E ter 6 meses de inverno todo ano.

Em lugares mais urbanos como o centro da cidade é comum passar um tratorzinho nas calçadas limpando a neve e o gelo.   O mesmo acontece nas ruas e vias de bicicletas.  Claro que eles não limpam o tempo todo.  Vez ou outra, numa tempestade forte de neve, fica tudo coberto de neve, que é onde fica o perigo de escorregar e cair.   Outro perigo é a neve ou gelo acumulado nos telhados de prédios.  Existe o risco de um pedaço grande cair na sua cabeça, assim como aqueles pingentes de gelo que ficam nas beiradas.  A recomendação é não andar perto das paredes pra evitar isso.  Mas todo ano morrem pessoas assim.

Caminho de bicicleta completamente limpo e lavado em uma área coberta de neve.

 E a roupa de inverno?  Todos os lugares onde frequentamos têm aquecimento, e por isso não usamos tanta roupa pra segurar o frio como no Brasil.  Geralmente uma boa jaqueta basta.  Só que essa jaqueta será seu melhor companheiro por 6 meses por ano.  Bom... talvez nem tanto.  Frio mesmo faz normalmente em janeiro e em fevereiro.  Então digamos de 2 a 3 meses.  Mas nos outros meses está frio, abaixo de 10°C.  Enquanto uma boa jaqueta dá conta do recado, a maioria tem jaquetas de meia estação, que é também meu caso.  São jaquetas que aguentam bem até uns -1 ou -2 °C.  Abaixo disso, daí sim a jaqueta de inverno.  E não dá pra lavar essa jaqueta a cada uso porque ainda mais no inverno não vai secar tão rápido e sair com jaqueta úmida por dentro não é lá uma boa ideia.  Lembram que comentei do cheiro da roupa aqui?  Pois é...

Eu usando a jaqueta de inverno que comprei nas promoções de primavera.  Jaqueta branca...

Aqui é comum ter muitas promoções boas de roupa de inverno no começo da primavera, por volta de março e abril.  Foi quando comprei essa jaqueta da foto.  Meu único arrependimento dessa jaqueta foi ter escolhido o branco.  Agora ela está toda encardida e não tem jeito de tirar.

Quando cheguei do Brasil eu sentia muito frio em temperaturas de 5°C pra baixo.  Eu usava uma camada a mais de roupa, a tal segunda pele ou camada básica.   Essa é uma malha a mais de algodão ou sintética, que ao contrário da roupa pra exercício pode ser de algodão (desde que não sue muito nela).   Depois de alguns anos morando aqui eu já não uso tanto até temperaturas até -5°C.  Só a calça jeans já tá bom o suficiente.  Mas isso também depende de quanto tempo estarei fora de casa.  Se for pra como por exemplo andar até à praia, onde tirei a foto do início do artigo, com certeza uso sim.  São uns bons 30 a 40 minutos de caminhada na neve até chegar lá.  E a calça jeans só não segura o frio assim por tanto tempo.  Pra ir pro trabalho de transporte público?  Só a calça jeans mesmo.

Vendo essa perspectiva de como funciona a vida no inverno aqui, acho que fica claro o motivo do Linus Torvalds ter criado um kernel.  É o que se tem pra fazer aqui durante o inverno.  Eu tento passar o tempo fazendo pizzas, pães, e cerveja.  Jogando PlayStation com os amigos e atualizando aqui o blog.  Mas mesmo assim... o inverno é longo.  Não acho que consigo criar um kernel, mas tenho feito muitas outras coisa.  E dá pra entender o porquê do R. R. Martin usar a Suécia como referência em seus livro do game of thrones.  Aqui a gente sempre sabe que o inverno está chegando...

O rei do gelo de game of thrones (jogo dos tronos) dizendo que o inverno não está vindo, que ele já está aqui.

 

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves - a identidade

Categoria: Suécia Publicado: Quinta, 23 Dezembro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Caso não tenha lido os artigos anteriores:

Como bom brasileiros, nascidos na burocracia, estamos acostumados a ter vários números pra diferentes finalidades.  CPF pra coisas relacionadas com imposto, RG pra identidade, certificado de reservista, cartão eleitoral, etc.  E cada um com um número qualquer que temos em geral de memorizar.

Na Suécia sua vida toda é ligada ao que é chamado de "personnummer", ou "personal number" em inglês, ou número pessoal na boa e velha língua tupiniquim.  Ele é composto de <ano em que nasceu><mês em que nasceu><dia em que nasceu>-<4 dígitos aleatórios>.  Algo como YYYYMMDD-ABCD.  Simples assim.

O ano de nascimento pode ser usado tanto o formato YY como YYYY.   Nos documentos aparecem no formato YY, mas quando recebe seu número, via carta, ele vem no formato do ano completo com 4 dígitos, YYYY.

E com esse número baseado no seu aniversário você faz tudo: vota, tira carteira de motorista, faz o imposto de renda, vai ao médico, contrata serviços pelo telefone, etc.

De posse do número, você pode tirar a sua carteira de identidade de estrangeiro residente.

A moçoila bonita da foto nasceu em 12 de junho de 1970 de acordo com seu "personnummer".   Existe um número gigantesco no topo à esquerda, o "kortnummer", que é "número do cartão", mas esse não é usado pra nada.

O mesmo formato aplica-se pra identidade de quem é cidadão sueco.

A diferença dessas identidades é que a primeira é emitida pelo skatteverket, órgão responsável por cobrar os impostos e também de registro civil, e o segundo, pela polícia.   O cartão emitido pelo skatteverket tem mais a aparência e formato de um cartão de crédito comum, enquanto que a carteira emitida pela polícia é um papel plastificado num plástico rígido.

Existe também a carteira de motorista, emitida pelo trafiksverket, órgão responsável controle e regulamentação de tráfego.

A carteria de motorista, körkort em sueco (kör - dirigir, kort - cartão), tem a data de nascimento no campo 3 e o número pessoal no campo 5, que mostra a mesma data em formato invertido e mais os 4 últimos dígitos aleatórios/verificadores (parece que os 2 últimos são os verificadores).  Aqui dentro da Suécia a carteira de motorista serve como identidade.   Tanto que só ando com ela na carteira.

Nas viagens que fiz aqui pela europa, a maioria dos aeroportos aceitou só a carteira de motorista pra embarcar.  Exceção foi o aeroporto internacional de Lisboa, que exigiu meu passaporte.

O ponto interessante aqui é que seu nome não diz muita coisa.  Quem o define é seu número pessoal.  Então qualquer pessoa pode ir ao skatteverket, onde está o registro civil, e mudar seu nome quando quiser, quantas vezes quiser e pro que quiser.  Parece simples, não?  E realmente é.

Claro que alguns podem argumentar que um sistema simples desse pode levar a um maior monitoramento de sua vida e atividades privadas.   Eu diria que sim.  Mas acho que benefício de ter um só número significativo pra tudo na sua vida compensa isso.  A menos que você seja um despachante.

Latinoware 2021 - carreira no exterior

Categoria: Suécia Publicado: Domingo, 31 Outubro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Eu acabei quebrando minha promessa de ano novo de postar aqui semanalmente durante os últimos meses.  Mas tenho uma boa justificativa.  Eu escrevi um artigo pra Revista Espírito Livre, fiz duas palestras na Latinoware, organizei a PyCon Suécia, organizei a hackathon na firma e fiz uma última palestra pra Tchelinux.

Muito disso ainda não foi publicado.  Quando aparecer, com certeza crio um post sobre o assunto.

Mas entre o que já foi publicado está a palestra sobre carreira na Latinoware.

 

Foquei mais nas perguntas que geralmente aparecem no grupo do telegram.  E, claro, tinha mais assunto pra falar, mas vou guardar pra outra oportunidade :)

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves - as crianças

Categoria: Suécia Publicado: Sexta, 10 Setembro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Um mural de mãos feito pelos alunos da escola pra celebrar o fim do semetres.  Várias marcas de mãos feitas com tintas variadas, um coração desenhado no meio e mostrando o ano, 2018.

Se você chegou agora e está perdido com o título, leia o primeiro artigo:

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves

Pra você que leu e talvez não tenha ficado claro o motivo de eu abordar as fotos nas revistas no primeiro artigo:  eu tentei mostrar que existe uma exigência de padrão de beleza bem menor que em países como o Brasil.  Aqui cada um veste o que quiser e do jeito que quiser.  E, claro, isso contribui pra felicidade da população.

E agora vamos falar um pouco das crianças.  Falar sem ver.  Por quê?  Porque a maioria dos lugares que eu adoraria mostrar não permitem fotos.  Tive de recorrer ao Google Maps para pegar algumas, mas as partes mais legais não aparecem porque em geral as escolas ficam dentro de parques.

Primeiramente que escola é obrigatória aqui.  A partir dos... acho que 6 anos (mas posso estar enganado, então pode ser que seja aos 7).  Começa no förskola (fer-is-cuo-la), ou primeira escola (primário), e depois vai do 1° ao 9˘ ano.  A partir daí é o colegial de 3 anos.  A escola em geral é gratuita, paga pelos impostos, mas descobri recentemente que alguma escolas internacionais em inglês são pagas.    Existem escolas em inglês que não são pagas, mas essas têm filas de 4, 5, e até mais anos.  Em geral é uma boa a escola em sueco pra criançada pegar o idioma, mas isso vai da decisão dos pais e suas possibilidades.

Independentemente de onde morar, é obrigatório a cidade oferecer uma vaga em até 3 meses na escola sueca.  Isso pode ser doloroso se estiver com aluguel de moradia curta de 6 meses, que é meio que regra aqui (e isso é muito ruim).

Na escola são dados materiais didáticos como cadernos, livros e canetas ou lápis.  Então basicamente você só precisa deixar a criança na escola e buscar depois.  Sobre o horário, muitas escolas abrem por volta das 6:30 da manhã, pra permitir aos pais que trabalham ou longe ou nesse horário pra ter onde deixar as crianças.  Pra buscar pode ser até às 7:30 da noite.  Mas se não me engano isso é de algumas escolas e o horário obrigatório é às 06:30 da tarde.   Na escola recebem alimentação pra ficar o dia inteiro.  E já esquecia desse ponto: as escolas são o dia todo.

Foto de um papel com um calendário desenhado pro uma criança, que contava os dias até o natal.

Além das aulas normais como de língua e matemática, nas escolas têm também aulas de culinária, marcenaria e costura.  Não aquela maravilha, mas vez ou outra sai umas  pizzas de forno (pão árabe, molho de tomate, presunto e queijo).  É comum também a escola levar a turma toda pra passeios em fazendas com animais.  Por quê?  Pra conhecerem os animais.  Então eles brincam com os coelhos, correm das galinhas e dão comida pros pôneis.  A escola também os leva pra aproveitar as piscinas indoor durante o inverno e a outdoor, que é bem rasinha, no verão.  Tem também passeios durante o inverno pra patinarem no gelo e, no ponto mais central, até esquiarem (existe um morro famoso aqui no centro que permite isso e não é muito alto).  Na escola ainda eles têm direito a 1 hora de aula da língua materna por semana.

Pra deixar bem claro: não é escola com aulas o dia todo, mas pra ter onde deixar as crianças.  A escola começa por volta das 8:30 e termina por volta das 14:00.  Alguns dias um pouco mais tarde, em outros um pouco mais cedo.   Desde o começo já aprendem a andar pela cidade.  Todas as atividades são ou nos parques ao redor das escolas ou em museus que em geral ficam em algum lugar distante, mais central, ou ainda nas tais fazendo que mencionei acima.  Então as crianças desde pesquenas são orientadas em como usar o transporte público.  Que é gratuito até os 8 anos.  E depois?  Continua gratuito pra maiores de 8 anos que precisam pegar transporte público pra ira à escola.  Eles oferecem um cartão que não paga nada até às 7:30 da noite durante a semana.  E, claro, o transporte de estudantes custa mais barato que o passe normal, caso precise comprar passagem pro fim de semana.

Imagem de crianças andando juntas com vestes amarelas para identificação.  Todas estão de costas para não serem identificadas.

 Em geral as escolas são próximas das residências.  Ao ponto das crianças irem sozinhas já com 7 ou 8 anos.  E eles incentivam isso.  Quando chegam numa certa idade, do ginásio, daí são escolas maiores e geralmente poucas por bairros.  E assim as escolas vão afunilando a localização conforme a criança vai crescendo.  É comum ver jovens indo pra escola de bicicleta.  Pra mostrar um pouco das escolas, vou recorrer ao Google Maps pelo motivo que já coloquei logo no começo do artigo: privacidade das crianças e adolescentes.

Foto do Google maps que mostra a entrada de uma escola primária num parque.

Foto de uma escola de alunos do ginásio.  Um prédio com 9 janelas, 3 por andar.  Na rua em frente um trator parado.

Foto do Google Maps que parece uma escola ao fundo com um playground na frente.  Eu não tenho bem certeza se esse prédio é uma escola.

E antes que me esqueça, aqui tem também uma bolsa pra cada filho melhor.  É chamado barnbidrag e vem metade pro pai e metade pra mãe, mesmo sendo casados.  Pra, no caso de separação e/ou divórcio, ficar tudo mais fácil.   É como uma bolsa família mas com a diferença de que todo mundo recebe, independentemente se sua renda mensal precisa ou não.  Não é um valor alto, por volta de 100 euros, mas é um dinheiro da criançada pra gastar com a criançada.

Bom... já descrevi da escola, mas onde está a parte relevante?  Onde está a parte que a Suécia esconde?

Aqui é comum ver as crianças, quando mais jovens, irem vestidas... como quiserem.  Meninos vão de vestido e meninas vão de vaqueiro.   Não existe um "menino usa azul e menina usa rosa", que é até considerado sexismo por aqui.  Tanto que uma loja de brinquedos viu-se no meio de uma discussão sobre sexismo ao separar os brinquedos em sessões "de meninos" e "de meninas".

Foto do Google Maps mostrando outro local de uma escola.  Mas como fica no meio do parque não é possível ver detalhadamente.  Aparece na foto um gramado grande, árvores e um prédio comprido de 2 andares ao fundo.

Pandemia

E como foram as escolas durante a pandemia?  Certo ou errado, a Suécia manteve a decisão de permanecer com escolas abertas até o 9° ano, pois o argumento foi de que era preciso manter as crianças na escola pros pais que trabalhavam na linha de frente pudessem continuar trabalhando.  Apenas os jovens do colegial passaram a ter aulas remotas.  E, claro, cada um recebeu um laptop pra poder participar das aulas.  Nas universidades também as aulas passaram pro modo remoto, mas não sei dizer se receberam um laptop pra isso ou não.

As ideias finais

Tá certo... mas isso não explica a reclamação dos pais moçambicanos, não é mesmo?  O que acontece aqui é que a Suécia trata cada criança como uma cidadã desde pequena.  Ao contrário de países como Brasil, onde os pais é que são seus guardiões, aqui o estado representa a criança e seus interesses.  Inclusive contra os próprios pais, se for o caso.  Então se um pai abusivo entrar em casa e bater numa criança, ou jovem, pode ser denunciado por esse à polícia.  É uma noção bastante estranha pra nós brasileiros, mas com o tempo você acaba acostumando (ou então volta pro seu país).

Existe uma discussão sobre a Suécia estar criando pequenos ditadores nesse sentido.  Mas eu diria que isso é um estigma de quem vem de fora e quer criar caso.   Ninguém comenta do sistema de ensino, das escolas gratuitas e só olham pra esse lado.  Claro que é mais fácil apontar pra um defeito, mas esquecer tudo mais que se ganha aqui?

Leva-se um tempo pra acostumar com as regras daqui e passar a tratar os filhos como... cidadãos.   Então como qualquer outra pessoa, você tem de sempre negociar.  Não vai tomar banho?  Não tem Internet.  Não vai pra escola?  Não tem youtube.  E por aí vai.  Não, não é tarefa fácil, como atestam os moçambicanos.

Mas falar de brasileiros ou moçambicanos pode até dar a ideia errada sobre o que está por trás disso.  O que acontece é que nem todo mundo compartilha os valores europeus.  E pra estar aqui, deveriam adaptar-se.  Então as famosas mutilações de genitais, praticadas em vários países do mundo, não é permitida aqui.  A criança pode denunciar os pais por tentarem fazer isso e pode ser direcionada pra viver com sob guarda do estado.

Estranho uma criança tendo direitos, não é?  Mas não devia ser.  Aqui não é.