Latinoware 2021 - carreira no exterior

Categoria: Suécia Publicado: Domingo, 31 Outubro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Eu acabei quebrando minha promessa de ano novo de postar aqui semanalmente durante os últimos meses.  Mas tenho uma boa justificativa.  Eu escrevi um artigo pra Revista Espírito Livre, fiz duas palestras na Latinoware, organizei a PyCon Suécia, organizei a hackathon na firma e fiz uma última palestra pra Tchelinux.

Muito disso ainda não foi publicado.  Quando aparecer, com certeza crio um post sobre o assunto.

Mas entre o que já foi publicado está a palestra sobre carreira na Latinoware.

 

Foquei mais nas perguntas que geralmente aparecem no grupo do telegram.  E, claro, tinha mais assunto pra falar, mas vou guardar pra outra oportunidade :)

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves - as crianças

Categoria: Suécia Publicado: Sexta, 10 Setembro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Um mural de mãos feito pelos alunos da escola pra celebrar o fim do semetres.  Várias marcas de mãos feitas com tintas variadas, um coração desenhado no meio e mostrando o ano, 2018.

Se você chegou agora e está perdido com o título, leia o primeiro artigo:

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves

Pra você que leu e talvez não tenha ficado claro o motivo de eu abordar as fotos nas revistas no primeiro artigo:  eu tentei mostrar que existe uma exigência de padrão de beleza bem menor que em países como o Brasil.  Aqui cada um veste o que quiser e do jeito que quiser.  E, claro, isso contribui pra felicidade da população.

E agora vamos falar um pouco das crianças.  Falar sem ver.  Por quê?  Porque a maioria dos lugares que eu adoraria mostrar não permitem fotos.  Tive de recorrer ao Google Maps para pegar algumas, mas as partes mais legais não aparecem porque em geral as escolas ficam dentro de parques.

Primeiramente que escola é obrigatória aqui.  A partir dos... acho que 6 anos (mas posso estar enganado, então pode ser que seja aos 7).  Começa no förskola (fer-is-cuo-la), ou primeira escola (primário), e depois vai do 1° ao 9˘ ano.  A partir daí é o colegial de 3 anos.  A escola em geral é gratuita, paga pelos impostos, mas descobri recentemente que alguma escolas internacionais em inglês são pagas.    Existem escolas em inglês que não são pagas, mas essas têm filas de 4, 5, e até mais anos.  Em geral é uma boa a escola em sueco pra criançada pegar o idioma, mas isso vai da decisão dos pais e suas possibilidades.

Independentemente de onde morar, é obrigatório a cidade oferecer uma vaga em até 3 meses na escola sueca.  Isso pode ser doloroso se estiver com aluguel de moradia curta de 6 meses, que é meio que regra aqui (e isso é muito ruim).

Na escola são dados materiais didáticos como cadernos, livros e canetas ou lápis.  Então basicamente você só precisa deixar a criança na escola e buscar depois.  Sobre o horário, muitas escolas abrem por volta das 6:30 da manhã, pra permitir aos pais que trabalham ou longe ou nesse horário pra ter onde deixar as crianças.  Pra buscar pode ser até às 7:30 da noite.  Mas se não me engano isso é de algumas escolas e o horário obrigatório é às 06:30 da tarde.   Na escola recebem alimentação pra ficar o dia inteiro.  E já esquecia desse ponto: as escolas são o dia todo.

Foto de um papel com um calendário desenhado pro uma criança, que contava os dias até o natal.

Além das aulas normais como de língua e matemática, nas escolas têm também aulas de culinária, marcenaria e costura.  Não aquela maravilha, mas vez ou outra sai umas  pizzas de forno (pão árabe, molho de tomate, presunto e queijo).  É comum também a escola levar a turma toda pra passeios em fazendas com animais.  Por quê?  Pra conhecerem os animais.  Então eles brincam com os coelhos, correm das galinhas e dão comida pros pôneis.  A escola também os leva pra aproveitar as piscinas indoor durante o inverno e a outdoor, que é bem rasinha, no verão.  Tem também passeios durante o inverno pra patinarem no gelo e, no ponto mais central, até esquiarem (existe um morro famoso aqui no centro que permite isso e não é muito alto).  Na escola ainda eles têm direito a 1 hora de aula da língua materna por semana.

Pra deixar bem claro: não é escola com aulas o dia todo, mas pra ter onde deixar as crianças.  A escola começa por volta das 8:30 e termina por volta das 14:00.  Alguns dias um pouco mais tarde, em outros um pouco mais cedo.   Desde o começo já aprendem a andar pela cidade.  Todas as atividades são ou nos parques ao redor das escolas ou em museus que em geral ficam em algum lugar distante, mais central, ou ainda nas tais fazendo que mencionei acima.  Então as crianças desde pesquenas são orientadas em como usar o transporte público.  Que é gratuito até os 8 anos.  E depois?  Continua gratuito pra maiores de 8 anos que precisam pegar transporte público pra ira à escola.  Eles oferecem um cartão que não paga nada até às 7:30 da noite durante a semana.  E, claro, o transporte de estudantes custa mais barato que o passe normal, caso precise comprar passagem pro fim de semana.

Imagem de crianças andando juntas com vestes amarelas para identificação.  Todas estão de costas para não serem identificadas.

 Em geral as escolas são próximas das residências.  Ao ponto das crianças irem sozinhas já com 7 ou 8 anos.  E eles incentivam isso.  Quando chegam numa certa idade, do ginásio, daí são escolas maiores e geralmente poucas por bairros.  E assim as escolas vão afunilando a localização conforme a criança vai crescendo.  É comum ver jovens indo pra escola de bicicleta.  Pra mostrar um pouco das escolas, vou recorrer ao Google Maps pelo motivo que já coloquei logo no começo do artigo: privacidade das crianças e adolescentes.

Foto do Google maps que mostra a entrada de uma escola primária num parque.

Foto de uma escola de alunos do ginásio.  Um prédio com 9 janelas, 3 por andar.  Na rua em frente um trator parado.

Foto do Google Maps que parece uma escola ao fundo com um playground na frente.  Eu não tenho bem certeza se esse prédio é uma escola.

E antes que me esqueça, aqui tem também uma bolsa pra cada filho melhor.  É chamado barnbidrag e vem metade pro pai e metade pra mãe, mesmo sendo casados.  Pra, no caso de separação e/ou divórcio, ficar tudo mais fácil.   É como uma bolsa família mas com a diferença de que todo mundo recebe, independentemente se sua renda mensal precisa ou não.  Não é um valor alto, por volta de 100 euros, mas é um dinheiro da criançada pra gastar com a criançada.

Bom... já descrevi da escola, mas onde está a parte relevante?  Onde está a parte que a Suécia esconde?

Aqui é comum ver as crianças, quando mais jovens, irem vestidas... como quiserem.  Meninos vão de vestido e meninas vão de vaqueiro.   Não existe um "menino usa azul e menina usa rosa", que é até considerado sexismo por aqui.  Tanto que uma loja de brinquedos viu-se no meio de uma discussão sobre sexismo ao separar os brinquedos em sessões "de meninos" e "de meninas".

Foto do Google Maps mostrando outro local de uma escola.  Mas como fica no meio do parque não é possível ver detalhadamente.  Aparece na foto um gramado grande, árvores e um prédio comprido de 2 andares ao fundo.

Pandemia

E como foram as escolas durante a pandemia?  Certo ou errado, a Suécia manteve a decisão de permanecer com escolas abertas até o 9° ano, pois o argumento foi de que era preciso manter as crianças na escola pros pais que trabalhavam na linha de frente pudessem continuar trabalhando.  Apenas os jovens do colegial passaram a ter aulas remotas.  E, claro, cada um recebeu um laptop pra poder participar das aulas.  Nas universidades também as aulas passaram pro modo remoto, mas não sei dizer se receberam um laptop pra isso ou não.

As ideias finais

Tá certo... mas isso não explica a reclamação dos pais moçambicanos, não é mesmo?  O que acontece aqui é que a Suécia trata cada criança como uma cidadã desde pequena.  Ao contrário de países como Brasil, onde os pais é que são seus guardiões, aqui o estado representa a criança e seus interesses.  Inclusive contra os próprios pais, se for o caso.  Então se um pai abusivo entrar em casa e bater numa criança, ou jovem, pode ser denunciado por esse à polícia.  É uma noção bastante estranha pra nós brasileiros, mas com o tempo você acaba acostumando (ou então volta pro seu país).

Existe uma discussão sobre a Suécia estar criando pequenos ditadores nesse sentido.  Mas eu diria que isso é um estigma de quem vem de fora e quer criar caso.   Ninguém comenta do sistema de ensino, das escolas gratuitas e só olham pra esse lado.  Claro que é mais fácil apontar pra um defeito, mas esquecer tudo mais que se ganha aqui?

Leva-se um tempo pra acostumar com as regras daqui e passar a tratar os filhos como... cidadãos.   Então como qualquer outra pessoa, você tem de sempre negociar.  Não vai tomar banho?  Não tem Internet.  Não vai pra escola?  Não tem youtube.  E por aí vai.  Não, não é tarefa fácil, como atestam os moçambicanos.

Mas falar de brasileiros ou moçambicanos pode até dar a ideia errada sobre o que está por trás disso.  O que acontece é que nem todo mundo compartilha os valores europeus.  E pra estar aqui, deveriam adaptar-se.  Então as famosas mutilações de genitais, praticadas em vários países do mundo, não é permitida aqui.  A criança pode denunciar os pais por tentarem fazer isso e pode ser direcionada pra viver com sob guarda do estado.

Estranho uma criança tendo direitos, não é?  Mas não devia ser.  Aqui não é.

 

Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves

Categoria: Suécia Publicado: Terça, 07 Setembro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Então recebi assim, sem muita cerimônia, a reportagem da Record sobre a Suécia.  Países considerados os mais felizes do mundo escondem problemas graves.  O título já é um grande bait. A coisa toda vai de mau a pior.  É um monte de bobagens juntas com vários estereótipos juntos.

Fonte: https://recordtv.r7.com/domingo-espetacular/videos/paises-considerados-os-mais-felizes-do-mundo-escondem-problemas-graves-16082021

Não é a primeira vez que recebo algo assim e provavelmente não será a última.  Minha sensação é que pra esconder a atual situação, que eles ajudaram a chegar com várias reportagens de apoio ao atual presidente, ficam despejando esse conteúdo de vira-latas.  Algo pra dizer "olha como não somos só nós que estamos mal, e eles escondem muitos problemas".  Claro que existem problemas aqui, mas não como no Brasil.

Então vou escrever um pouco mais sobre a Suécia e tentar mostrar pelo menos outro tipo de visão da coisa.

E escolhi escreve sobre... propaganda!  Sim, propaganda.

Aqui usa-se muito a imagem das pessoas como elas são, sem muita maquiagem, nem sensualização.   Então não é um povo que vê sexo em tudo que vê, nem leva tudo pra um lado erótico.  Pelo contrário.

Uns exemplos tirados de revistas.  Nesse primeiro temos uma mulher... trocando o pneu.  E duvido que seja apenas pra aparecer na capa da revista.  Aqui a igualdade é levada ao extremo é comum ver mulheres trabalhando em empregos que tipicamente temos somente homens no Brasil, como construção civil.

Revista com mulher loira levantando um carro pra trocar o pneu.  Ela usa calça jeans azul, um moletom cinza e tem um trança longa no cabelo loiro.  Usa pouca ou nenhuma maquiagem.

Essa é a revista do sindicato.  Eu sou sindicalizado aqui e faço parte do Unionen, um dos maiore sindicatos da Suécia.  Na capa da revista é possível ver outra mulher e... nada de pose sensual.  Pouco maquiagem.  Apenas ela.  E não é só nas revistas.  Normalmente as mulheres aqui não usam muita maquiagem.  Nem vestem-se de maneira muito chique.

Revista Kolega do sindicato da Suécia chamado Unionen com uma mulher ruiva usando uma jaqueta cor laranja.  Foto de lado mostrando que carrega uma bolsa.

Essa parte interna da revista tem uma propaganda com essa mulher acidentada.  Novamente nada de maquiagem, ou ao menos que possa mostrar sensualidade.  Se não me engano era um anúncio de seguro.

Mulher loira com pouca maquiagem, segurando um telefone numa mão e a roda de uma bicileta na outra.  Ela usa capacete e parece olhar para frente pensando em alguma coisa.

Um artigo sobre uma fazenda de animais ou algo assim.  Notem novamente a pessoa na foto.  Sem muita maquiagem e com roupas simples.

Mulher ruiva sentada no chão com seu cachorro ao lado.  Ela usando pouca maquiagem e roupas simples: uma jaqueta verde no estilo camuflada, uma camisa preta com bolinhas brancas e calça preta.  Ao fundo um viveiro com galinhas.

Agora uma reportagem interna sobre um treinador de futebol pra crianças.  Novamente uma pessoa como ela é: sem roupas marcantes, sem ser aquele sueco super sensual e fortão.  Apenas uma pessoa com cara de gente boa e fazendo algo que inspira outros a fazerem igual.

Homem louro com cabelo despenteado ajoelhado e segurando uma bola.  Veste uma camiseta da Adidas vermelha e calça preta.  Crianças correm ao redor dele de forma animada.

E essa bela foto dessa vovó simpática então?  Novamente pouca produção e a pessoa mais próxima do que realmente é em seu cotidiano.

Uma foto de rosto de uma idosa sorridente com cabelos grisalhos curto e óculos.

Aqui mais um homem, desses que a gente se identifica.  Não aqueles deuses nórdicos que a mulheres acham que vão ver o tempo todo na Suécia.  Esse sim um típico sueco.

Homem sentado em sofá azul.  Cabelos louros escuro com um pullover laranja, calça marrom e tênis branco.

E mais uma foto de propaganda na revista.  Agora de um casal em posição de... nada.  Apenas olhando o telefone juntos.  Ambos usando roupas comuns e ela com um pouco de batom.  E só.  Bem simples, e bem cotidiano.

Casal de jovens sentados em uma cadeira grande olhando juntos a tela de um telefone.  Ele de jaqueta azul, camiseta rosa e bermuda cinza.  Ela de jaqueta jeans azul.

A última foto de mulher nesse artigo.  Sem muita maquiagem e cabelos no mais natural possível.

Foto de rosto de uma mulher loura com cabelo desarrumado.

E finalmente a capa da outra revista que mostrei a parte de dentro, o guia de saúde que recebemos a cada 3 meses.  Novamente um homem sueco com cara de sueco mesmo.  Simples, de óculos, com apenas uma blusa e nada estravagante.

Homem com cabelo louro escuro e óculos numa paisagem cheia de vegetação.

Acho que até aqui já foi possível entender como as coisas funcionam aqui.  O que existe no Brasil como normal em termos de propaganda com certeza seria tido como vulgar aqui.  Eu mesmo depois desse tempo todo já vejo como vulgar, imagina então eles?   E esse zen de vestir-se e viver de forma simples está em todo lugar.   Algumas pessoas vão pra empresa de terno, mas maioria não vai.  Aliás não existe um "dress code".  Veste-se o que quer e como quer.  Eu até acredito que é possível ir com a cueca por fora da calça que ninguém vai falar nada.

Então a Suécia figura como um dos países mais felizes do mundo.  Um dos motivos é esse: simplicidade.  Em tudo.

 

Minha experiência de quase COVID na Suécia

Categoria: Suécia Publicado: Sexta, 05 Março 2021 Escrito por Helio Loureiro

Com o spoiler to título, já sabem que não tive COVID.   Mas fiquei doente, bastante, e vou contar como funcionou o sistema de saúde sueco.

Tudo começou numa segunda-feira (tinha de ser coisa de segunda-feira mesmo), ao fim do dia.  Comecei a sentir aquela típica dor nas costas e calafrios de febre.   Não deu outra: 39°C de febre dali uma meia hora.   Como eu já tinha tido uma virose um tempo atrás, já sabia que o procedimento era aguardar pelos menos 2 dias antes de entrar em contato com o sistema de saúde.

Passado os 2 dias, nada da febre baixar, então procurei o sistema de saúde.  Se é uma emergência, o número é 112.  Do contrário, o número é o 1177.   É possível acessar o sistema de saúde por web também, através do https://1177.se, mas eu preferi por telefone.  Ao ser atendido, uma das opções é pra continuar em inglês.  Sei que existem suportes a outras línguas como árabe e eritréia (na verdade não sei como chamam a língua da Eritréia em português, que fica Eritrean em inglês).  Fiquei uns 2 minutos na espera até que alguém atendeu a ligação.  Conversamos sobre os sintomas e a pessoa disse que realmente poderia ser COVID.  Então eu teria de estar isolado em casa, o que já tinha feito desde o primeiro dia, e pedir o teste pra confirmar.   Pra eu não ter de decifrar como pedir o teste, foi enviado um SMS com o link direto pra eu fazer o pedido.  E fiz.

Eu tinha ligado no terceiro dia de manhã, mas o teste só foi entregue no dia seguinte, pois a fila de gente pedindo era grande.  Foi entregue em casa por um motorista de táxi.  Ele me telefonou antes de chegar avisando que estava a caminho.

O kit de teste era esse aqui:

Nada de muito sofisticado.  Um cotone, um prato descartável, uma cápsula pra conter o cotonete e saquinhos plásticos pra fechar tudo.  Minhas informações estava no QR-code borrado.  Veio tudo em sueco mas...

instruções em inglês no site.

Fiz a coleta, ligue de novo pro motorista e deixei a amostra do lado de fora da porta.

Nesse meio tempo segui apenas a recomendação que passaram: tomar algum remédio pra baixar a febre e não ficar o tempo todo na cama.  Doses de paracetamol deram conta do recado.

No mesmo dia em que fiz o exame eu já recebi o resultado.  Era umas 10 ou 11 horas da noite, mas veio por SMS.  Teste negativo.

Foi um grande alívio, mas mesmo assim passei 5 dias com febre.  Liguei no 1177 no dia seguinte e eles disseram que poderia mesmo ser uma gripe.  Mas em caso da febre continuar persistindo eu deveria buscar o posto de saúde próximo de casa pra buscar ajuda.  Não precisei.

Não houve nenhuma recomendação ou sugestão pra usar coisas como cloroquina ou ivermectina, remédios que fazem a cabeça dos brasileiros.  Apenas algo pra manter a febre baixa.  E beber bastante água.

Talvez no próximo post eu explique um pouco como funciona o sistema de postos de saúde aqui.

Pandemia escandinava (artigo de junho de 2020)

Categoria: Suécia Publicado: Sexta, 19 Fevereiro 2021 Escrito por Helio Loureiro

Esse é um artigo meio que requentado.  Eu o preparei no ano passado pra uma edição da Revista do Espírito Livre sobre a pandemia que no fim nunca foi lançada.  O que descrevo é um retrato de como estava a situação da Suécia na época.   Estamos em 2021 e muita coisa mudou.  E pra pior.  Mas isso eu deixo pra comentar mais pra frente em outro artigo.

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Não acompanho muito de perto como está a pandemia no Brasil.  Mas vejo pelas notícias que chegam por aqui que está uma bagunça geral e que em certos pontos citam a Suécia como referência.  E não só no Brasil: nos EUA também vejo muitas pessoas citando a Suécia como exemplo, no início como bom, e ultimamente como mau.

 

Eu já vivo no coração da escandinávia, em Estocolmo na Suécia, mais de 5 anos e vou descrever um pouco de como foi e está sendo enfrentada a pandemia por aqui, como as coisas mudaram, como tudo foi afetado.  Vou aproveitar o parágrafo pra pedir desculpas pelos ângulos das fotos.  Todas foram tiradas de uma câmera gopro que uso em meu capacete quando estou andando de bicicleta.  E como é um bicicleta road, o ângulo sai um pouco pra baixo.

 

A Suécia não decide sua política pública de saúde por meio de ministros ou governo.  Existe uma autoridade de saúde que publica os fundamentos das políticas a serem adotadas e todos seguem.  O governo poderia ir contra o que é recomendado mas essa autoridade é composta por epidemiologistas especialistas.  A cara do órgão é Anders Tegnell, epidemiologista reputadíssimo que chefiou inclusive equipes na luta contra ebola.  É ele quem geralmente aparece no relatório diário que é feito sobre a evolução da epidemia.   Não somente ele, mas a equipe que trabalha lá decide quais são as medidas adotadas por aqui.

 

Foto de Frankie Fouganthin retirada da wikipedia sobre Anders Tegnell.
Foto de Frankie Fouganthin retirada da wikipedia sobre Anders Tegnell.

 

 

Mas nem tudo são flores.  Muitos outros cientistas, também renomados, são contra as medidas adotadas aqui.  E chegaram mesmo a fazer uma carta pública contra Tegnell.  Mas aparentemente aqui a ciência fala mais alto e ele continua sendo o chefe por lá.

 

Entre as decisões tomadas pra conter o avanço da doença, foram decretadas as seguintes medidas: distanciamento social, creches e escolas primárias abertas, restaurantes e bares só atendem clientes sentados em mesas e existem espaçamentos de 1 mesa entre cada mesa, que trabalhem de casa os que puderem, completo isolamento de asilos, e permitidos agrupamentos com menos de 50 pessoas.

 

Essas medidas parecem simples e fogem do padrão de lockdown que muitos outros fizeram como solução, como foram os casos da Espanha e da Itália.  O argumento aqui foi que não existe nenhum estudo comprovando a eficácia do isolamento, que uma vez tendo as pessoas novamente em circulação, o vírus espalhará como faria normalmente e que as pessoas não são estúpidas.  Todos entendem que há uma pandemia lá fora.

 

Isso resultou em ruas vazias.  Muitos pequenos negócios estão falindo, inclusive restaurantes e bares que podem ficar abertos.  As ruas costumam ficar desertas.  O empreendedor que dirigia táxi ou uber está praticamente sem trabalho.  Serviços como cabeleireiros estão vazios.  Lojas estão às moscas.  Não declarar lockdown não foi o que salvou o comércio aqui.  Pra amenizar os efeitos econômicos da pandemia, o governo editou uma série de pacotes de ajuda, como pagar 40% do salário de quem teve o número de horas trabalhadas reduzidas, sendo a empresa arcando com 50% e os 10% restantes seriam por conta do trabalhador.  E até mesmo o pagamento de financiamento de casa pode ser suspenso por mais de 1 ano.



Foto de uma sexta-feira às 6 horas da tarde no centro de Estocolmo.
Foto de uma sexta-feira às 6 horas da tarde no centro de Estocolmo.

 

 

Mesma rua, um pouco à frente da foto anterior.  Algumas pessoas nas mesas de fora, o que dá a sensação de estar cheio, mas são apenas essas pessoas.  Dentro o bar estava vazio.



Como não estamos em lockdown o governo recomenda que todos saiam de casa pra fazer exercícios e aproveitar o sol, que é uma coisa rara na Suécia e costuma sumir por longos 4 meses de pesado inverno.   O ponto que levam em questão é que para saúde mental é importante as pessoas manterem hábitos saudáveis como andar pelos parques, andar de bicicleta ou correr.  E muita gente segue essa recomendação por aqui, inclusive eu.

 

Keepers of the cog rule #6:  Free your mind and your legs will follow.
Keepers of the cog rule #6: Free your mind and your legs will follow.

 



E quem olhar bem atentamente pras fotos vai perceber que não há quase ninguém usando máscaras.  Esse é outro ponto controverso, mas a autoridade de saúde diz que não há comprovação da eficácia do uso de máscaras contra o COVID-19.  Por favor não enviem mails ou mensagens me xingando ou links pra artigos que dizem o contrário.  Eu não sou a autoridade sueca, que conta com médicos especialistas em doenças infecciosas.  Mas em geral é o que acontece quando comento esse item.

 

Qual o resultado pra essa política?  Até agora o número de mortos é muito acima dos outros países nórdicos, mas todos implementaram lockdown.  Esse é o grande drama do modelo sueco: as pessoas não estão enclausuradas em casa, mas isso fez com que o número de mortos fosse grande.  Um dos maiores do mundo (estamos chegando ao número de 5 mil mortos com o número de mortos por dia caindo).  O argumento é que não faltaram leitos em UTI pra essas pessoas, o que é verdade.  Houve preparo com até hospital de campanha sendo criado em 2 semanas, e que foi desmontado recentemente por falta de uso.  No pico da contaminação da doença o número de leitos utilizados foi por volta de 500 dos 1500 disponíveis.  Atualmente esse número é abaixo de 400.  A taxa de mortalidade do vírus é muito alta em idosos, que foi onde a Suécia admite que errou: deveria ter bloqueado acesso aos idosos desde o início.  E treinado melhor os funcionários de asilos, pois há relatos de que muitos foram trabalhar sem equipamentos de proteção adequados e mesmo alguns com sintomas de gripe. 

 

Outro ponto que as estatísticas mostraram foi que os mais afetados em sua maioria eram idosos de famílias de imigrantes.  A teoria é de que ao contrário dos suecos, existem pessoas de diferentes idades vivendo na mesma residência e isso permitiu o espalhamento da doença mais facilmente entre esses avôs e avós que viviam com os netos na mesma residência.   Nesse ponto traçam um certo paralelo com o que aconteceu na Itália, onde dizem ser algo parecido em termos de moradia.

 

Ao contrário dessas famílias, o povo nórdico gosta de viver sozinho.  O índice de pessoas que vivem só é algo em torno de 56% da população.  Bom… não posso nem reclamar pois sou praticamente parte dessa estatística.

 

Praia sueca.  Não lotada mas com pessoas.  E todas mantendo distância.  E sem máscaras.
Praia sueca. Não lotada mas com pessoas. E todas mantendo distância. E sem máscaras.

 



Escrevi bastante sobre o corona vírus e como a sociedade nórdica tem enfrentado o mesmo, mas não escrevi nada sobre software livre.  Dos eventos que eu em geral participava, todos viraram online ou serão online.  Das atividades que teríamos, como hackathons, todas ou foram online ou foram canceladas.  Eu sou do board de organização da PyCon Sweden e esse ano já definimos que será online, e copiado como foi feita com a bela experiência da conferência Pyjamas, criado no Brasil.   Mesmo que por milagre a doença amenize, ninguém acredita que as todos se sentirão seguros em estar em um aglomerado com 200 a 500 pessoas juntas.  Não esse ano.  E talvez nunca mais.

 

Como nossa organização sempre foi online, pouca coisa mudou.  Mantemos nossas reuniões bi-semanais por conferência via browser e salvamos as minutas no github.  Usamos o telegram pra conversas rápidas e mesmo manter os interessados na conferência a par do que está sendo feito.

 

E seguimos em frente.

 

Então acho que era isso que eu tinha pra descrever sobre como estamos enfrentando a pandemia aqui na Suécia.    A receita parece simples, mas por aqui as coisas são levadas à sério.   Então se quiserem seguir o exemplo sueco minha dicas são: fiquem em casa o máximo que puderem, ao sair de casa mantenham a distância de 2 metros ou mais uns dos outros, caso isso seja difícil usem máscaras, e lavem bem as mãos e com bastante frequência.

 

Hélio Loureiro