
Se você chegou hoje ao mundo do software livre, pode não estar a par do drama que passou o bom Dr., também conhecido como Richard Stallman. Ou "rms" pros mais familares. Durante a época do #meetoo, apareceram acusações contra ele. A coisa toda virou um turbilhão que culminou com sua saída do MIT, onde morava.
Mas isso eu estou sintetizando demais. Felizmente hoje o Alexandre Oliva postou uma excelente sumarização de tudo. Tão boa que resolvi salvar aqui pra estar disponível pra posteridade.

contexto, que acho que não está no site:
epstein era um bilionário traficante de pessoas e de influência. entre os vários meios usados para acumular influência, fazia doações vultosas para instituições acadêmicas e patrocinava eventos científicos. além das atividades, digamos, curriculares, promovia atividades paralelas em que atuavam as escravas sexuais por ele traficadas e mantidas. pesquisadores capturados nessa rede abriam portas para ele, ou porque queriam mais dos favores recebidos, ou porque não queriam que suas aventuras viessem a público.
o MIT estava em polvorosa. um dos diretores havia recebido e disfarçado doações ilegais. um professor, então já falecido, havia sido citado nominalmente por uma das vítimas de tráfico humano. ela afirmava que havia sido orientada a se oferecer para ele numa conferência científica. protestos estavam sendo organizados no MIT por conta disso. muitas pessoas estavam justificavelmente furiosas com os abusos e com a participação de pessoas do MIT.
stallman escreveu, numa lista interna de um departamento onde se propunha adicionar o nome desse professor ao protesto, coisas controversas como que epstein era um estuprador em série, que mantinha um harém, e que provavelmente a vítima escravizada havia sido orientada a se oferecer ao professor como se estivesse genuinamente interessada.
alguém pegou parte da discussão nesse grupo e passou para uma pesquisadora que já estava justificadamente revoltada com os escândalos, e essa pessoa publicou, admitindo-se transtornada, um pôste em que afirmava que stallman havia sugerido que a vítima estivesse genuinamente interessada.
a atitude mais controversa de stallman, que despertou a ira dela e de outras tantas pessoas, foi não embarcar na busca figurativa de sangue de seja quem for para expiar os crimes de epstein. ele foi cauteloso e comedido em não condenar o professor e isso foi imperdoável naquele clima de caça às bruxas. (depois se descobriu que o professor, por sorte ou por cautela, foi acompanhado da esposa para a tal conferência científica, e recusou a oferta da vítima, dando razão à atitude de cautela e comedimento)
o pôste virou notícia, primeiro com relatos mais ou menos fieis ao que ele havia escrito, depois com distorções ainda maiores que as da estudante. um mesmo sítio de fofocas publicou uma matéria narrando os fatos e poucas horas depois outra afirmando até que ele defendia epstein! um horror de pseudojornalismo. mas bombou, bem no momento em que bill gates abafava um escândalo de pedofilia em sua mansão.
a insanidade da caça às bruxas prevaleceu e em poucos dias ele foi obrigado a renunciar de suas posições tanto de pesquisador visitante no MIT, onde morava, quanto da organização de software livre que fundou e presidiu até então, para protegê-la do escâdalo.
anos depois, tendo sido investigado e absolvido por quem se deu o trabalho, ele foi reconduzido à diretoria da organização de software livre. foi um novo escândalo quando pessoas inconformadas se uniram a interesses corporativos e publicaram uma carta aberta contra ele e toda a diretoria da organização.
pelo menos uma pessoa que participou da escrita da carta aberta depois teve a honradez de reconhecer que sabia que as alegações na carta não eram verdadeiras, e que sabia que não eram verdadeiras.
outra carta aberta apoiando a organização, sua diretoria e seu ex-presidente foi publicada e recebeu mais que o dobro de assinaturas que a carta mentirosa.
alguns anos depois, um novo ataque veio com novas interpretações fantasiosas de notícias e comentários que stallman publicara em seu blog de ativismo político tentava de alguma maneira associá-lo a pedofilia. um relatório que se pretendia anônimo teve em pouco tempo sua origem identificada como um ativista obcecado por tomar o lugar de stallman, aparentemente traumatizado por questões sexuais e viciado em consumir e traficar desenhos eróticos adolescentes. ficou claro que, no relatório, projetava em stallman suas próprias interpretações, pensamentos e desejos sobre práticas sexuais com crianças e adolescentes.
tenho saudades do tempo em que as empresas só atacavam stallman com bobagens como que ele não toma tanto banho quanto nós (porque vem de clima frio, onde isso é o normal), ou que ele é uma pessoa difícil de lidar (porque ele não se deixa enrolar, não cede em questões de princípio, e tem crises e meltdowns autistas mesmo não se identificando como tal).
as falsas alegações de perversões e abusos sexuais são muito mais injustas e muito mais daninhas, porque pessoas acreditam e reagem por cautela e horror, mesmo sem provas, e porque são muito mais difíceis de contestar e de desprovar. é terreno fértil para explorar pessoas preconceituosas e semear a discórdia e a injustiça nada desinteressada.
Excelente resumo.
O original está aqui: https://snac.lx.oliva.nom.br/lxo/p/1776650481.265613
Alguns dos eventos não estão comentandos, como o que as mulheres do MIT foram à público reclamar que o bom Dr. era um pouco demais em seus flertes. E como ele não gostava de plantas, colocavam plantas em suas salas pra o manter longe dali. Assim como sua volta à FSF, que não foi lá muito bem recebida uma vez foi decida por um pequeno grupo dentro da mesma (o que mostra que a luta por liberdade não é necessariamente uma democracia), mas em geral descreve bem a situação.
