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Competindo com software livre

Pizza time

Software livre me faz lembrar pizza em vários aspectos: gosto de pizza como de software livre, é prática de fazer e comer, poucas pessoas não gostam (só as que não experimentaram na verdade), todos sabem como fazer (quais os ingredientes usados) e posso conseguir de vários lugares diferentes, as pizzarias, experimentando uma pizza de um sabor novo em cada lugar.  Além de que cada região tem uma personalidade própria em sua pizza.

Quando se tem uma empresa de software livre, em certos aspectos de negócios não se difere muito de uma pizzaria.  Em geral pizza não é um segredo e suas receitas são abertas (conhecidas).  Qualquer pessoa pode iniciar uma pizzaria.  Mas no mundo dos negócios, seja em pizzas ou seja em software livre, as coisas nem sempre vão bem.  É possível notar pela quantidade de pizzarias que abrem e fecham logo em seguida.  O mesmo com empresas e profissionais de software livre.

Se pizzas são gostosas e todos comem, e não se paga nada por suas receitas (o código fonte), então por qual motivo as pizzarias não dão todas certo?

Com certeza não são as pessoas, os usuários de pizza (soa meio como tráfico de drogas, mas vamos deixar assim por enquanto), os culpados.  O que realmente atrapalha as pizzarias são... elas próprias e as outras pizzarias.  

 Essa disputa entre pizzarias pelo gosto dos usuários é chamado de competição no mundo dos negócios.  Como se pode notar pelas pizzas, nem sempre uma pizzaria é ganhadora do gosto de todos o tempo todos.  Todo mundo experimenta pizzas de vários lugares e nem sempre isso significa a falência das outras pizzarias.  Então a competição nos negócios não é o extermínio dos outros competidores, mas a alternância desses para ganhar a decisão do cliente.  O problema é quando nossa empresa nunca acaba sendo escolhida por nenhum cliente e por muito tempo.

Um dos fatores que leva tanto as pizzarias quanto as empresas de software livre a sair do mercado é a falta de clareza em como elas se estabelecem pra competir pelo gosto do usuário.  Quando digo aqui empresas, digo também profissionais, afinal não é pequena a quantidade de pessoas que começam a trabalhar com software livre mas em certo ponto de suas carreiras profissionais abandonam tudo pra usarem Windows e outros softwares proprietários.  De acordo com um dos papas na área de gestão estratégica de empresas, Michael Porter, um professor de Harvard, existem 2 formas de competição: por diferenciação ou por custos.  O melhor é escolher uma dessas estratégias de competição e atuar somente nela, não misturado com a outra.  Não que isso seja impossível, mas é preciso ter muito cuidado pra não misturar ambas e acabar por arruinar seu negócio.

Competição por diferenciação

Red Hat Inc., um dos maiores nomes no mundo de software livre, responsável pela distribuição empresarial de mesmo nome e mantenedora do projeto Fedora, fechou o ano fiscal de 2012 com vendas no valor de 1,33 bilhões de dólares. Lucro líquido de 209 milhões de dólares.  Essa é uma empresa que demonstra como participa de sua competição utilizando a estratégia da diferenciação. 

Red Hat Inc. vende um Linux como outro qualquer: baseado em código aberto.  Tanto que a distribuição CentOS nada mais é que a compilação dos fontes do produto Red Hat Enterprise Linux, a versão empresarial de Linux da Red Hat.  Então como uma empresa que vende algo gratuito e aberto consegue tanto dinheiro?  Pelo seu diferencial de serviço.  A Red Hat Inc. agrega um serviço preferencial de suporte.  Empresas compram o Red Hat Enterprise Linux não somente por se tratar de Linux, mas por vir com a gama de serviços que a Red Hat presta, como atendimento 24x7, suporte on-site, atendimento telefônico, etc.

Entre tantas empresas de Linux, e mesmo distribuições, a Red Hat Inc. soube mostrar um diferencial a mais para cativar o público corporativo.  E de uma forma bem lucrativa, mas sempre mantendo o espírito do software livre.

Competição por custos 

Quase todos que mexem alguma coisa com software livre conhecem o sistema de hospedagem da Amazon.  E conhecem por ser... barato!  A Amazon Inc. utiliza uma estratégia de baixo custo pra competir na área de cloud computing.  Isso significa que muitos mais usuários utilizarão a plataforma e, a cada novo usuário, ela conseguirá baixar ainda mais seus preços.  Essa é a competição por custos: mantendo o menor custo possível de operação e com o maior número de clientes possível.

Competição das pizzarias

Com esses dois modelos de competição em mente, já é possível entender o motivo pelo qual nem toda pizzaria se mantém aberta.  É difícil ter uma pizzaria com área de recreação, som ambiente, manobrista na porta e cobrar um preço baixo pela pizza.  Opta-se por um ou pelo outro para se ter sucesso.

Em software livre, eu acredito que deveria ser o mesmo.  Em geral eu visualizo que a maioria dos empreendimentos de software livre utilizam a estratégia da diferenciação, por entregar um "algo a mais".  Mas e quando alguém faz o mesmo?

Sim, estratégia é uma parte, importante, mas só uma parte.  

 

Freesoftware e negócios

Não é sobre dinheiro. É sobre passar uma mensagem.

Quais são a 4 liberdades do software livre, segundo o próprio Stallman?

  • A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito (liberdade 0).
  • A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo às suas necessidades (liberdade 1). Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.
  • A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao próximo (liberdade 2).
  • A liberdade de distribuir cópias de suas versões modificadas a outros (liberdade 3). Desta forma, você pode dar a toda comunidade a chance de beneficiar de suas mudanças. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

As mesmas foram copiadas da página do projeto GNU, em "a definição do software livre".  Ainda no mesmo é possível ler:

"Um programa é software livre se os usuários possuem todas essas liberdades. Portanto, você deve ser livre para redistribuir cópias, modificadas ou não, gratuitamente ou cobrando uma taxa pela distribuição, a qualquer um, em qualquer lugar. Ser livre para fazer tudo isso significa (entre outras coisas) que você não deve ter que pedir ou pagar pela permissão para fazê-lo."

Apesar da relutância de algumas pessoas, software livre não significa exatamente software gratuito.  Quando alguém adota um licença livre, permite entre outras coisas que seu software seja vendido e outra pessoa ganhe com isso.

Sempre é fácil exaltar os benefícios do software livre, como compartilhamento e conhecimento.   De ter uma comunidade em volta da mesma.  Mas quando o assunto chega no bolso, na parte financeira, parece que dói na vaidade de algumas pessoas aceitar isso.

Observando outro dado importante sobre software livre, mais precisamente o kernel Linux (fonte: arstechnica):

Das contribuições ao kernel entre 2012 e setembro de 2013,somando os sem qualquer vínculo com os desconhecidos, os consultores e o acadêmicos, tem-se 19.5% de código gerado por eles contra 52,5% gerado por empresas, isso olhando apenas essa lista e não todas as contribuições.  Ou seja, empresas que têm uma visão de negócios investem fortemente em software livre e são no momento a maioria do commits de código no kernel Linux.

O que estou tentando mostra aqui é que existe um interesse financeiro pra tal investimento das empresas.  Existe um modelo de negócios com software livre, apesar de negado com todas as forças por muitas pessoas.

Quando se fala em software livre, todos lembram de usar um licença de acordo, seja GPL2, GPL3, BSD, Mozilla, Artistic ou qualquer outra livre, mas nunca pensa num ponto importante: como ganhar dinheiro com esse software?  E isso não deveria ser combatido, mas fomentado, pois como apresentei no início, em momento algum Richard Stallman fala para não se fazer um modelo de negócios com software livre e que lucrar com isso seja errado.

Eu poderia então pegar uma distro como Debian, colocar numa embalagem bonita, adicionar manuais impressos, criar caixas com um logo novo, chamar de HeliOSTM, e vender ao preço de R$ 500,00 a caixa.  Eu só precisaria incluir o código fonte disponível, até no site e separado das mídias, e incluir no manual dizendo que o sistema é baseado em Debian.  Claro que isso por si só não bastaria.  Seria preciso verificar quem seria meu mercado consumidor e iniciar uma campanha de marketing direcionada para comprovar como o HeliOSTM é um dos melhor sistemas para se usar num computador.  E em nenhum momento eu estaria indo contra os 4 princípios do software livre.  E nem precisaria realmente fazer o software: poderia continuar copiando do Debian.

Isso é apenas um exemplo pra ilustrar como é possível fazer negócios com software livre, gostando os desenvolvedores e comunidade ou não.  E sempre é preciso pensar nisso: em qual parte da cadeia gostaria de estar?  Em quem faz o negócio com o software livre, ou quem gera software pra outros comercializarem.  O software livre permite que todos estejam do outro lado, que sejam seus próprios patrões.  Mas pra isso é preciso estar preparado e não ter uma visão ingênua do software livre, de comunidade, mas um foco em como ter sua vida baseada nele.

Tentarei manter um ritmo de posts sobre o assunto e descrever como fazer o primeiro milhão de software livre (para quem ainda não o fez).

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